O fantasma de Duchamp – Apontamentos para um debate

Percorri o circuito de exposições em cartaz no Rio de Janeiro nos últimos dias da semana passada. Há o belo panorama de Ana Vitória Mussi no Paço Imperial e a desconcertante exposição Tombo, de Rodrigo Braga, na Casa França-Brasil, dentre as boas surpresas. Mas há também, em outras ocorrências, a sensação de que Peter Burger nunca soou tão importante e atual, com Hal Foster o comendo pelas beiradas. Estamos vivendo uma farsa da História, ancorados em clichês sobre política e transgressão que soam como um maneirismo cerebral e conceitual. Creio que é importante pensarmos sobre ele com o devido vagar, mas com bastante urgência. O que é repetição na diferença, e portanto citação saudável? O que é repetição do mesmo, se transformando apenas em trejeito?

Cildo Meireles escreveu um texto em 1970 que foi publicado pela primeira vez na revista Malasartes cinco anos mais tarde. Acho que ele vem bem a calhar com algo que tenho discutido esparsamente com os companheiros do JUCA, o Grupo de Estudos de Arte da Rua Julio de Castilhos, que se encontra quinzenalmente na minha casa. Amplio o desejo de debate ao postá-lo aqui:  o fantasma de Duchamp assombra a arte contemporânea, com uma distorção de seus ditos e escritos que Cildo já percebia nos anos 1970. Outros fantasmas das vanguardas, cada vez menos camaradas, parecem habitar,  junto com Marcel, o sótão de nossa imaginação – nas obras de arte, nos textos sobre elas.

É preciso refletir sobre o que o Cildo diz. Temos sacado Duchamp do bolso para explicar coisas que não precisam passar por ele. Como disse sabiamente Rodrigo Braga no debate sobre Tombo, todos nós somos em alguma medida filhos de Duchamp.  Mas nem sempre os trabalhos enfatizam essa herança como ponto de partida. No caso de Tombo, aliás, vejo lindos motores que são bem outros, e vêm de um enfrentamento e de um conflito sempre presentes na obra de Braga, agora transposto para a briga entre palmeiras imperiais e colunas arquitetônicas, com o raciocínio fotográfico contaminando, no melhor dos sentidos, a primeira instalação do artista.

Mas isso é outra história.

Agora é preciso ler o Cildo. Vamos a ele?

(Ao Duchamp, às apropriações e  à política, ao menos em seu stricto senso,  poderíamos ir apenas quando for realmente legítimo e necessário. Que tal?)

+++

Fala, Cildo:

Quando numa definição filosófica de seus trabalhos, M. Duchamp afirmava que, entre outras coisas, seu objetivo era libertar “a Arte do domínio da mão”, certamente não imaginava a que ponto chegaríamos em 1970. O que à primeira vista podia ser facilmente localizado e efetivamente combatido tende hoje a localizar-se numa área de difícil acesso e apreensão: o cérebro.

É evidente que a frase de Duchamp é o exemplo, hoje, de uma lição mal aprendida. Muito mais que contra o domínio das mãos, Duchamp lutou contra o artesanato manual, contra a habilidade das mãos, enfim, o gradativo entorpecimento emocional, racional, psíquico, que essa mecanicidade, essa habitualidade, fatalmente provocaria no indivíduo. O fato de não ter as mãos sujas de Arte nada significa além de que as mãos estão limpas.

Muito mais do que contra as manifestações de um fenômeno, luta-se contra a lógica desse fenômeno. O que se vê hoje é um certo alívio e uma certa alegria em não se usar mais as mãos. Como se as coisas estivessem, até que enfim, O.K. Como se nesse exato momento a gente não precisasse iniciar a luta contra um adversário bem maior: a habitualidade e o artesanato cerebral.

O estilo, seja das mãos, seja da cabeça (do raciocínio), é uma anomalia. E anomalias, é mais inteligentes abortá-las do que assisti-las vivendo.

2 thoughts on “O fantasma de Duchamp – Apontamentos para um debate

  1. Gosto muito deste debate, Daniela. Usa-se Duchamp com o alívio de não se usar mais as mãos. Poucos lembram, aliás, que ele voltou ao retiniano no fim de sua carreira, com Étand Donnés. Será que Cildo já conhecia a obra “póstuma” de Duchamp quando escreveu este texto? Em todo caso, Cildo SENTIU Duchamp e isso muito em ensina.🙂

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