Daniel Senise e aquilo que quase já não existe

Daniel Senise inaugura a individual Le Salon na galeria Silvia Cintra nesta quinta-feira, dia 10, em um brunch na parte da manhã, dentro da programação paralela da ArtRio. Fui convidada a escrever o texto de apresentação da mostra, que batizei de Aquilo que quase já não existe e compartilho aqui:

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Le Salon é uma exposição contemporânea sobre saberes cada vez mais anacrônicos. É também uma espécie de réquiem. Ao decompor e transformar em tijolos todos os volumes da Enciclopédia Britânica e um exemplar da Bíblia, Daniel Senise talvez tente dar sentidos e argamassa para um mundo que está virando pó.

Os trabalhos reunidos nesta exposição são um aprofundamento de algumas veredas abertas pelo artista nos últimos oito anos. Em obras como Eva (2009-2010)site-specific realizado no Centro Cultural São Paulo, Senise moeu o refugo de convites e folders de exposições e criou tijolos com estes farelos. Os impressos seriam jogados fora, mas o artista deu para estas imagens descartadas um novo alicerce, a possibilidade de outra vida. Esta mostra também significa nova aproximação com o universo dos livros. Um pouco antes de começar o trabalho com tijolos, Senise se encontrou com a obra de Albert Skira (1904-1973), e passou a construir imagens com as páginas dos livros de história da arte lançados pelo editor francês.  O artista criava áreas vazias ao retirar das edições os cartões sobrepostos às páginas, e que vinham com reproduções de trabalhos de El Greco, Velásquez e Manet, entre outros “grandes mestres”. A falta da imagem arrancada acabava gerando áreas contrastantes de cor, pela diferença de exposição do papel ao tempo e à luz. Com esta paleta, Senise criava brise-soleils e outras fachadas arquitetônicas, que poderiam ser também gavetas mortuárias. Nesta mostra, a presença das duas telas negras batizadas de Exs, feitas com capas de livro, deixa claro que estas imagens poderiam ser simplesmente estantes vazias.

O que estes trabalhos parecem nos dizer é que o ritmo de nossa vida cotidiana talvez não ceda mais lugar para os livros. Nem para aqueles que, como uma enciclopédia ou um compêndio religioso e mitológico, tiveram um dia a pretensão de nos ajudar a entender a gênese do mundo ou a de guardar as coisas desse mesmo mundo para a posteridade. Houve um tempo em que a lombada azul da Britânica era o mergulho certeiro no mar do conhecimento, uma pescaria de respostas objetivas, mas fundamentadas por especialistas. Houve um tempo em que no princípio era o Verbo. Recorrer a ele em sua forma escrita – a letra como vestígio das imagens, contando tudo o que existe sobre algum papel – era a maneira mais usual de descortinar o saber.

“Charles X premiando os artistas do Salão de 1824”, pintada por François-Joseph Heim

É curioso que Senise tenha escolhido se debruçar, nos últimos anos, sobre aquilo que quase já não existe: a impressão gráfica de convites e folders (Alguém os lê? Alguém lerá este texto?), os livros e, mais recentemente, os museus. Le Salon, obra que dá título à exposição, fala desta obsolescência:  a arte como algo ultrapassado, e talvez por isso mesmo fundamental. Senise fez sua pintura a partir de outra, Charles X premiando os artistas do Salão de 1824, criada por François-Joseph Heim em 1827. Há, na apropriação contemporânea dessa imagem, uma reflexão sobre a permanência de sistemas de premiação e de criação de celebridades, além dos gatilhos para modismos que se tornam vícios, mesmo que hoje apareçam disfarçados pela máscara da transgressão. Mas ainda mais importante que isso é o fato de  Senise apresentar todos os quadros da imagem original vedados por pedaços de tecido claro, mas opaco. As imagens exibidas com orgulho e gala por Heim agora estão cobertas por um manto de indistinção. Há ainda, na pintura de agora, um revelar do próprio processo de trabalho de Senise, os vestígios e a gênese de sua criação. Um gesto que insiste em apontar para a necessidade de um estado de concentração e o gasto de um pouco de suor para dar à luz estas coisas que quase já não existem.

Ao lançar mão de livros e museus, Senise reinveste ainda na questão fundamental de sua obra: a relação com algo que está ausente. O artista se apropriou de obras de Giotto, Caspar Friedrich, Michelangelo e James Whistler, adulterando-as, velando-as integralmente ou alguns de seus detalhes fundamentais; marcou a trajetória de um bumerangue sem apresentar o objeto; usou lençóis de hospitais e motéis para criar uma monumental Via Crucis e uma gravura tridimensional feita pelo registro do corpo e do tempo na superfície do pano. Aquilo que falta, Ela que não estásempre foi o princípio e o fim, o que mais importa. O protagonismo desta imagem que está em outro tempo e espaço, distintos daqueles em que só podemos observar o recalque que ela nos causa, tem feito da obra de Senise uma espécie de conversa com fantasmas.

Este diálogo intermitente, que se dá fora de sequência, como as aparições de fogo-fátuo, aparece de forma intensa e ambígua em todas as obras de Le Salon. O declínio da experiência não significa pobreza – ou talvez resida na pobreza o caminho das nossas reinvenções, como refletiu Walter Benjamin em 1933, pressentindo uma das horas mais escuras da História.  Ao se voltar para o que parece obsoleto e ultrapassado, Senise oferece possibilidades de resistência ao tufão que inventa o que é desejável, para desinventar segundos depois. Livros e museus parecem apontar para o anúncio fúnebre de um universo que conhecemos e aprendemos a amar. Eles também nos ensinam, sem revolta ou nostalgia, que a vida talvez seja mesmo assim, um acúmulo de nossos mortos e nossas mortes, das imagens e histórias que nos habitam. Prova disso é a própria pintura: alardeada defunta, ela ainda nos visita para causar assombros e os maiores arrepios.

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