Cosac

É mais do que lamentável o fim da editora Cosac Naify, mas também é bonita e corajosa a atitude de Charles Cosac de fechar a editora antes que ela se transforme em projeto decadente. Em vez de descaracterizar o perfil de seu catálogo, o colecionador de arte preferiu fechar as portas, encerrando os trabalhos como eles começaram: com um livro de Tunga, ainda em processo, como informou ao experiente repórter de literatura Antonio Gonçaves Filho, em entrevista publicada no Estadão de ontem.
A crise da Cosac é anterior ao difícil momento por que passamos no país, mas o quadro geral pode ter agravado, e muito, a situação da editora. Charles resistia às edições de dominío público, porque acreditava que os livros impressos num ritmo frenético, tão somente para renovar as vitrines das livrarias, não eram compatíveis com aquilo que havia sonhado para a Cosac. Este tipo de edição também pode eventualmente abocanhar uma adoção do Ministério da Educação – e isso poderia significar um lucro considerável na época em que o MEC ainda pagava as editoras em dia. Muitas empresas que têm nos livros didáticos e paradidáticos seu motor de funcionamento estão enfrentando sérias dificuldades, com os atrasos de quase um ano em algumas parcelas do plano de adoção. Com isso, deixaram de pagar antigos colaboradores e contratar novos especialistas.
Voltando à Cosac, ficaremos todos um pouco órfãos com seu fim, mas talvez seja melhor guardar a editora como uma boa memória. Outras casas que marcaram a história do livro no Brasil cederam à descaracterização  para que não morressem como negócio. Em alguns casos, a mudança é tão radical que substitui antigos livros de política internacional e história por títulos de auto-ajuda, disfarçados com uma capa de conteúdo e enxertados nas supostas linhas editoriais do catálogo.
Os livros de auto-ajuda não são necessariamente um mau passo, e algumas editoras que os publicam de maneira franca e compatível com suas histórias fazem isso com maestria. Mas é triste ver este filão servindo como muleta para selos editoriais que tinham outro caminho. Com a chegada destes títulos, eles ganharam sobrevida econômica, mas enfrentaram  outra morte, talvez mais grave que a da Cosac: perderam coerência e personalidade, e hoje são zumbis preenchendo prateleiras.
A Cosac desaparece jovem e ainda esplêndida, deixando uma bela memória. Guardarei como tesouro meus exemplares de A febre na selva, de Henry James, o Bartleby com páginas que deveriam ser rasgadas, o Gorki na caixinha amarela, o Lévi-Strauss, os Irmãos Grimm por J. Borges e o Esopo com ilustrações do Eduardo Berliner – isso sem falar no imenso catálogo de livros de arte.
Obrigada ao Charles e a todos em sua equipe que nos fizeram leitores mais felizes.

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