Boitatá, 20 anos*

Concentração Boitatá na Lapa Foto:Daniela Name
Concentração Boitatá na Lapa Foto:Daniela Name

O domingo 31 de janeiro, pré-carnaval, foi o dia de madrugar para sair no cortejo do Cordão do Boitatá, uma rotina que repito, com algumas lacunas, desde 1997. Na celebração dos 20 anos do bloco, ele voltou a fazer um trajeto semelhante ao de sua estreia, saindo dos Arcos da Lapa e percorrendo a lateral da Fundição Progresso, as ruas do Lavradio, Gomes Freire e Pedro I e desaguando na Praça Tiradentes, não sem antes fazer uma parada estratégica na Rua da Relação, em frente à sede do Cordão do Bola Preta, para prestar homenagem a este que é o pai e a mãe dos blocos de carnaval em atividade no Rio.  O cortejo deste domingo diz muito sobre a importância do Boitatá, e sobre como o cordão se transformou em um marco na história recente da cidade – e também nas trajetórias pessoais dos cariocas por nascimento ou adoção que têm entre 30 e 50 anos, e amadureceram como foliões junto com o grupo. Mostra ainda como, antes de ser um bloco nostálgico, o Boitatá tem os pés ancorados na folia de hoje, com a capacidade de olhar para o futuro e de incorporar – talvez este seja mesmo o melhor verbo – a herança musical brasileira de outros carnavais.

O cordão surgiu despretensiosamente, como uma derivação do grupo musical homônimo, que desde seu início esteve vinculado a um calendário das festas populares brasileiras – além dos dias de Momo, o período de São João e o Pastorio Natalino, entre outras. Nos encontros dos músicos para tocar, trocar ideias e beber aquela cachacinha, surgiu a vontade de brincar o carnaval nas ruas do Rio. Mais precisamente nas ruas de um Centro que ainda era desabitado na segunda metade dos anos 1990. “Nos nossos primeiros desfiles havia apenas nós, algumas pessoas mais próximas, os mendigos e os meninos que cheiravam cola no Centro do Rio, que brincaram conosco”, lembra Kiko Horta, o arranjador e acordeonista que é diretor musical do Boitatá, e está à frente do grupo junto com os parceiros Cris Cotrim e Thiago Queiroz.

O Boitatá para em frente à sede do Bola Preta para homenagear o bloco Foto: Antonio Nuzzi
O Boitatá para em frente à sede do Bola Preta para homenagear o bloco Foto: Antonio Nuzzi

Aos poucos foram chegando os amigos, os amigos-dos-amigos e os amigos-dos-amigos-dos-amigos. A expansão desta rede afetiva e o boca-a-boca – todo mundo passou a saber que um bloco incrível desfilava com orquestra acústica e os foliões fantasiados da maneira mais louca e criativa – foi fazendo com o que o Cordão do Boitatá de fato fizesse jus ao próprio nome. O pequeno grupo se tranformou num cordão, grande reunião de pessoas. Hoje são 80 músicos, fora os agregados de última hora, além dos atores e acrobatas do Teatro do Anônimo e da companhia teatral Pedras, parceiros do bloco desde os primeiros anos (todos foram integrantes da extinta Cooperativa dos Artistas Autônomos, essencial para viabilizar muitas das conquistas para o carnaval e as festas cariocas). O Boitatá, segunda parte do nome de batismo, também foi virando verdade: o grupo foi mesmo a cobra mitológica, que pode encarnar a cada hora em um lugar, assumindo múltiplas faces.  Embora nunca tenha feito contra-divulgação de seus horários e trajetos, muitas vezes o cordão se viu obrigado, sobretudo nos primeiros anos, a mudar um percurso por causa de obras, trânsito ou simplesmente de uma caçamba imprevista, que atravancava o caminho. Era um outro momento do carnaval, em que a Prefeitura ainda não dava a menor importância para os blocos de rua e não havia orientação de trânsito ou policiamento orientando os foliões no Centro.

 Uma festa para a toda a cidade

Atrizes-malabaristas do Teatro do Anônimo que desfilam com o Boitatá Foto: Daniela Name
Malabaristas da Ala Dourada do Boitatá, coordenada por Raquel Poti Foto: Daniela Name

A parceria com o Teatro do Anônimo acabou gerando uma sede para os grupos, na Rua do Mercado, no início dos anos 2000. Logo depois, o Boitatá fez o primeiro baile na Praça XV, que já tem 10 anos. “A vontade de fazer um baile veio da noção de que precisávamos ter um escape, uma segunda alternativa para os foliões, pois o cortejo estava cada vez mais cheio. Demoramos um pouco a entender que já havíamos ultrapassado a fronteira de um bloco para amigos, e de que havíamos assumido a responsabilidade de fazer uma festa para a cidade”, diz Kiko Horta. “No primeiro baile da Praça XV, não tivemos qualquer apoio do poder público. Pegamos uns tablados na Fundição Progresso e pusemos no meio da praça, apenas para os músicos ficarem alguns centímetros acima do chão. Ligamos um som e tocamos. Todo ano aprendemos um pouco mais sobre o que é fazer o carnaval de rua, e sabemos que o cortejo e o baile precisa conseguir receber todo o tipo de gente, da velhinha de 80 anos ao bebê”.

No aprendizado desta “engenharia da folia”, uma das primeira lições aprendidas pelo grupo foi a de que o cortejo, antes à tarde, precisava migrar para a parte da manhã. Tudo para que fosse realizado com a leveza característica do Boitatá, em que a brincadeira é sempre maior que o teor alcoólico e a violência, protagonistas em outros blocos. No desfile deste ano, que contou com ruas apertadas, muitos tapumes das obras públicas e a passagem por um acidente de carro que obstruiu parte da Gomes Freire, não houve nenhuma ocorrência policial, nem de roubo, nem de briga. Na conversa com Kiko e na concentração na Lapa, onde esperei ansiosa pelo início da festa com um grupo de amigos, pude refletir sobre as muitas razões além do baixo teor alcoólico matutino que justificam o processo quase mágico que é desfilar pelo Boitatá.

Ali ao lado dos Arcos, vi fantasias das mais criativas, de um folião que fez o vestido de melindrosas com colherzinhas de plástico a um Charles Chaplin tropical. Vi também as cabrochas do grupo Pedras evoluindo com os estandartes do cordão, que carregam os nomes e as imagens de grandes músicos e artistas brasileiros: Candeia, Cartola, Dona Ivone Lara, Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Martinho da Vila, Elza Soares, Ariano Suassuna, Eduardo Coutinho. No “esquenta”, antes de começarmos a caminhar, o grupo tocou, como de costume, Coisa no. 4, de Moacir Santos, e Trenzinho caipira, de Villa-Lobos. Estar diante desta banda, com cerca de 30 percussões e 50 instrumentos de sopro, é presenciar a heterogeneidade da herança musical do Rio de Janeiro: há gente da Orquestra Sinfônica Brasileira, das baterias das escolas de samba Vila Isabel e Mocidade, do Corpo de Bombeiros.  Ao longo do trajeto, este conjunto riquíssimo toca marchinhas, mas também frevos e maxixes, trazendo os carnavais de outras geografias brasileiras para a festa que tem o samba carioca como sua grande âncora. Na Praça XV, o grupo não só dá abrigo para grandes músicos e intérpretes- de Yamandú Costa a Teresa Cristina, de Hamilton de Holanda ao Jongo da Serrinha – como pede a eles que apresentem composições inéditas para o público. O Jongo, aliás, evidencia as fronteiras do grupo para além do carnaval. O Boitatá passou um mês ao lado de Mestre Darcy e de Tia Maria, na Serrinha, comunidade de Madureira, criando coletivamente com cantores e dançarinos. Com o trabalho durante o carnaval e depois dele, o grupo é um depositário de nossa riqueza musical, mas também plataforma de lançamento de novas criações. Como a cobra mítica de mil faces que empresta seu corpo para dar voz, visibilidade e movimento aos seus parceiros.

Cantando ao lado do bloco, não é difícil perceber que é a música, em sua qualidade de execução e em sua diversidade de repertório, que dá a liga ao Boitatá. É ela, auxiliada pelos recursos cênicos do grupo e a participação espontânea e potente do público, que faz com que o silêncio emocionado também tenha lugar na festa da euforia. É ela, a música – tão abandonada e preterida nos desfiles de escola de samba e nos carros de som gritados de outros blocos – que tem o poder de criar conexões das mais variadas. É o cancioneiro brasileiro que  dá a este grupo um gigantesco poder de incorporação. Falei dele no início deste texto, e creio que ele é o segredo do Boitatá, é o que faz o Cordão ser um patrimônio do Rio de Janeiro. Ouvir Villa-Lobos e ao mesmo tempo ver os estandartes com Capiba e Dominguinhos tremulando é entender que este bloco consegue acessar o inconsciente coletivo de todo mundo que participa da festa. Mesmo quando faz isso através de um repertório sinfônico – como no recente baile na Praça XV aberto por um solo de flauta da Bachiana no. 5 – está conectado com a mais genuína tradição afro-brasileira.

Desfilando no presente, o Boitatá se imanta das figuras de seus estandartes, tomando-lhes empretadas as energias e histórias. Assim, faz com que a música de outros tempos “baixe” em todos nós, “cavalos” desta tradição ancestral. Nossos antepassados voltam a viver quando cantamos e dançamos com eles e para eles, numa odisseia que ano a ano nos reensina o carnaval. O Boitatá nos mostra que a folia é uma espécie de “poesia de rua”, como bem define Kiko. Para mim, vem sendo também uma história de amor. Domingo que vem, na Praça XV, em frente ao palco do Cordão, seremos mais uma vez ouvintes, amantes e poetas. Que alegria.

 

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Para cobrir os gastos com o cortejo e o baile da Praça XV, o Cordão do Boitatá criou uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. Se cada folião colaborar, a festa se torna ainda mais nossa. As contribuições dão direito a lembranças que marcam o 20 anos do bloco. Saiba mais aqui.

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*Para Cecilia Horta, com a alma grata e o coração em festa.

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