Lavoura arcaica* – Rodrigo Braga

Fotografamos cada vez mais, olhamos cada vez menos. Deslizamos sobre as imagens com uma rapidez frenética, com a atenção dividida entre múltiplos estímulos, o que nos impede que sejamos impressionados por aquilo que vemos. Em cartaz na Galeria do BNDES apenas até a próxima sexta-feira, a exposição Agricultura da imagem, de Rodrigo Braga, apresenta o percurso de um artista que tem oferecido resistência a essa velocidade amorfa.  O consistente conjunto de fotografias, vídeos, desenhos e anotações de Braga tem curadoria de Daniel Rangel.

Em seu texto de apresentação, o curador cita Jeff Wall e seu conceito de “fotógrafo agricultor”, aquele que constrói suas imagens a partir de ideias concebidas previamente. Um tipo oposto ao “fotógrafo caçador” de Ansel Adams, pronto a capturar o imediatismo de um instante. Braga é mesmo um lavrador, e tira partido de formas ancestrais e arcaicas para criar suas imagens.  O artista despontou pela excelência em deslocar corpos de animais ou vestígios vegetais de seu contexto original, aproximando-os e distinguindo-os nesse exílio. É assim, por exemplo, em  Mortalha mútua 1 e 2 (2012) e Biomimesis (2014), em que sobrepõe folhas e corpos de peixe aproximando-os no desenho e na morte, numa espécie de solidariedade entre fantasmas.

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O uso da palavra “fantasmas”, aqui, não é mero recurso estilístico. Braga tem lidado, ao longo de toda a sua trajetória, com o balé entre a vida e a morte, constante na natureza. Agricultura da imagem mostra como ele tem sido feliz ao fundir os ciclos vitais e a ideia de deslocamento dos corpos com o próprio gesto de fotografar.  A fotografia é algo que subtrai um organismo de determinado contexto, uma conjugação de espaço-tempo. O fotógrafo lhe rouba a existência para, quem sabe, oferecer outra possibilidade de vida através da imagem. Creio que isso ocorre na obra de Braga mesmo em suas   recentes investidas em obras tridimensionais, em que usa troncos de árvores mortas para interferir no espaço expositivo. É o caso da peça no pátio de entrada do BNDES ou da obra-título da exposição Tombo, realizada na  Casa França-Brasil no ano passado. Ao retirar árvores mortas de seu lugar de origem e levá-las para outro ambiente, o artista não deixa de estar se aproximando mais uma vez da fotografia. No caso da França-Brasil, o jogo de espelhamento que os troncos criavam com as colunas do prédio reforçava ainda mais esta impressão.

A imagem forasteira que a fotografia proporciona  – os antigos, não custa lembrar, acreditavam que uma foto poderia roubar sua alma – faz com que a visita à exposição no BNDES se assemelha a um flerte com o mundo dos mortos. Braga está sempre lidando com esta fronteira, como evidencia a foto Deriva (2010), em que um tronco semelhante aos de seus esculturas recentes flutua entre as cores distintas das águas do Rio Negro e da areia de suas margens.  Sempre as margens: elas são recorrentes na obra do artista, que, ao revisitá-las, enfatiza a imensa força daquilo que é marginal.

Optar pelas bordas não é um processo idílico, nem tranquilo, mas Braga o enfrenta com seu próprio corpo em Venoso e arterial (2013, veja clicando aqui), vídeo que é totalmente distinto, mas capaz de estabelecer potente diálogo com Tornado, de Francis Alÿs. Se Alÿs entrava dentro de tornados, mostrando como o centro era muito mais tranquilo que a margem, Braga usa uma câmera presa à cabeça para descer a ribanceira de uma erosão na costa de Pernambuco, caminhando na direção do mar. O risco que envolve o encontro dessas forças opostas – a água que desce da encosta, a água do mar que chicoteia as pedras – é marca de seu trabalho desde o princípio, e ocorre aqui de maneira escancarada. A ideia de uma margem que pressiona e violenta também fica clara em três belíssimas fotos-ilhas: Ilha lago  (2009), Ilha rio (2012) e Ilha mar (2013) – a ilha como berçário e como sepultura dos peixes. A ilha como um campo de espera onde o adubo feito com esses seres mortos fazem imagens renascerem no tempo da colheita, tempo da arte.

+++

Qualquer exposição é um acontecimento em período específico e em determinado espaço, por isso é preciso destacar que a economia do design expositivo enfrenta bem a arquitetura do BNDES, cujo piso de mármore escuro, bastante reflexivo, é apenas um dos desafios para qualquer exposição apresentada ali, já que todos os trabalhos ganham um duplo rebatido no piso.  A opção por uma iluminação rebaixada e por cor neutra (areia) nos painéis e nas paredes que formam os núcleos de vídeo diminui o impacto deste espelho negro e também assegura um acolhimento do visitante nas dimensões gigantescas da galeria. A opção de transpor para a galeria o ateliê do artista, com seus desenhos de juventude, seus objetos, sua escrivaninha e seu catálogo de referências  é muito mais feliz do que a sala de anotações de Tombo, que pertenciam ao campo da curadoria. Por isso, talvez  ficassem mais adequadas em uma documentação virtual ou impressa do que nas vitrines expositivas.  No BNDES, o ateliê do artista, próximo à mesa de referências apresentada por Luiz Zerbini na exposição Amor, é campo de criação que se desloca das entranhas para a superfície da mostra. Elemento estrangeiro que ousa renascer em outro mundo, ele é mais um parente da fotografia que Agricultura da imagem apresenta como solo arado e fértil.

*Roubei o título deste ensaio-relâmpago do livro homônimo de Raduan Nassar. Assim como Rodrigo Braga, o escritor é um artista que exige e oferece tempo de espera e ruminância.

2 thoughts on “Lavoura arcaica* – Rodrigo Braga

  1. Maravilhoso!! Me movo nessa vibe! Bjs

    Em terça-feira, 12 de abril de 2016, Daniela Name escreveu:

    > danielaname posted: “Fotografamos cada vez mais, olhamos cada vez menos. > Deslizamos sobre as imagens com uma rapidez frenética, com a atenção > dividida entre múltiplos estímulos, o que nos impede que sejamos > impressionados por aquilo que vemos. Em cartaz na Galeria do BNDES ap” >

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