Iran do Espírito Santo, dia e noite

São Paulo

Iran do Espírito Santo apresenta a individual Fuso, na Galeria Fortes Vilaça, em São Paulo. Mais do que um um estudo sobre nossas percepções do tempo, sobre as diferenças de peso e temperatura que podem existir no dia e na noite, sobre óptica e sobre as possibilidades da luz e da cor em fricção com a arquitetura, a exposição testemunha o caminhar incansável do artista na direção de seus interesses e suas obsessões.  

Um índice a mais da coerência do artista – e de sua movimentação por um território que é cada vez mais seu – é o texto assinado pelo próprio Iran, presente no cartão-folder à disposição do público na galeria, que eu reproduzo a seguir. O texto chega a emocionar por ser tão profundo, sem deixar de ser cristalino, de se abrir generosamente para a luz das leituras.

A relação com seus trabalhos com espelho, expostos na mesma galeria em 2011, salta aos olhos, assim como a ideia de crepúsculo (ou amanhecer) e gradação presente no site specific En passant, que teve versões apresentadas em diversas instituições e galerias, entre elas o Instituto Inhotim, em Minas Gerais, e a galeria Artur Fidalgo, no Rio de Janeiro. No Inhotim também está Copo d’águaobra que oferece pontes com Cúpula, presente nesta exposição de agora. 

As fotos publicadas aqui foram feitas para divulgação por Eduardo Ortega e são uma cortesia da Fortes Vilaça.

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Texto de Iran do Espírito do Santo para apresentação de Fuso:

And when I do my job, I am thinking about these things,

Because when I do may job, that is what I think about.

Langue d’amour, Laurie Anderson

Esta exposição reúne uma pintura de parede e duas esculturas. São trabalhos concebidos independentemente, mas que foram agrupados por aquilo que neles diz respeito às várias formas de interpretação do tempo.

A palavra fuso refere-se, entre outras coisas, tanto ao fuso horário quanto ao fuso mecânico, às peças de relógio e ao instrumento para fiar na roca, numa época de produção pré-industrial. Em inglês, thread significa linha, mas também rosca (fuso) de um parafuso e, metaforicamente, diz respeito à narração de um evento (o fio da meada).

Para a Cúpula, tomei como modelo a cuúpula de um velho relógio cujo mecamismo é exposto dentro de uma espécie de vitrine. Esse objeto, que pode estar associado a outras funções- como a proteção de coisas frágeis e valiosas -, neste caso, protege o mecanimso hipersimbólico da marcação do tempo, cuja função está indissociada do espetáculo da mecânica com seus movimentos pendulares, rotativos e sons característicos. Na transposição para a escultura, foram mantidas suas formas e medidas básicas, entquanto o material do objeto original estaá re-apresentados com o cristal em versão sólida, indicando, talvez, uma cristalização paralisante pela supressão e suspensão de um tempo pragmático, por via da contemplação de um ícone vazio.

A pintura sobre parede intitulada Fuso recorre a minha constante opção e apreço pela imagem aderia ao espaço que a contém, cujos limites são definidos pela realidade objetiva e pela função da arquitetura. São alusões ao dia e à noite, apresentadas, simultamentamente, como projeções de imagens inversas, sendo uma o negativo da outra. Seu paralelismo traz para o interior da exposição a ideia de simultaneidade e transparência do mundo globalizado, onde as faces do planeta se alteram entre a claridade e a escuridão, sem contudo, aquietarem-se por ocnta das demandas dos movimentos dos mercados.

Os dois trabalhos acima citados situam0se no segundo andar/mezanino da galeria. entre eles, circulam ideia implícitas sobre o tempo incontinente que constrange nossa existência, na combinação de um sólido trasnparente e imagens evanescentes que, embora tendo rastros de um significado sugerido, de fato, alteram fisicamente a luminosidade de espaç real, dada a predominância do claro ou do escuro. Nesse sentido, essas pinturas atuam sobre a percepção concreta do mundo físico. Com elas, continuo a trabalhar um dos assuntos mais reorrentes em minha produção: as várias formas de representação da luz com suas variações e o largo espectro de significados, inseparáveis do real e da matéria.

A Galeria Fortes Vilaça tem uma particularidade em sua arquitetura: o visitante entra pelo nível intermediário, uma espécie de átrio, dividindo, marcadamente, os dois níveis. Essa característica me levou a projetar a exposição, considerando especialmente as divisões entre alto e baixo, entre o evento cósmico “dia e noite” (acima, na “cúpula” da galeria) e da dinâmica do dia a dia (baixando ao nível inferior). Nesse plano, o mais rente ao solo, paralelo à rua, tentei criar uma espécie de praça/chão de fábrica, com a materialidade hiperbólica de uma escultura em aço, de significado inequívoco. Intitulada Base fixa, ela é formada por quatro conjuntos de porcas e parafusos, dezoito vezes maiores que o modelo original e pesando mais de uma tonelada. Ela incorpora o material e as formas da produção industrial da qual é originária e representante.  Dessa forma, esssa escultura tem um caráter indicial inerente, que reforça o elo meaterial entre objetos e signos que, separadamente, talvez pudessem ser tomados (sem que houvesse aí nenhum equívoco) por expressões de poéticas paralelas, independentes das questões sociopolíticas que norteiam a exposição como um todo. Seus quatro cantos demarcam um quadrado central de forma carla e definitiva, como fixados numa base imóvel. Se, por um lado,o desenho espiralado da rosca contém o movimento helicoidal infinito de uma figura matemática, por outro, a materialidade ostensiva da escultura fixa o movimento, restando a tensão entre as forças de avanço e de retrocesso, de movimento e reação.

 

 

 

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