5 perguntas para Raphael Fonseca

 

Os artistas Gabriela Mureb e Zé Carlos Garcia me ajudaram a entrevistar o curador Raphael Fonseca nesse 5 perguntas, que tem como ponto de partida a exposição Quando o tempo aperta, premiada como projeto de curador ana 5a edição do Marcantonio Vilaça e em cartaz no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro.

 Historiador com olhar plural, Fonseca vem desenvolvendo a capacidade de conciliar a pesquisa minuciosa com a recusa em abandonar o mundo, a vida que corre. Não se encastela na Academia, mas não abraça a curadoria instantânea e gratuita, tão dominante hoje em dia. Sua mostra Quando o tempo aperta é a história roçando o Brasil pressionado e dividido dos nossos tempos – assim mesmo, no plural. É ainda a certeza de que, se nos apartamos da História e das histórias,  elas se disfarçam, se agigantam… E nos engolem. 

RAPHAEL FONSECA andre komatsu e marcelo cidade
Obra de André Komatsu e Marcelo Cidade em “Quando o tempo aperta”, no MHN

DANIELA NAME: Quando o tempo aperta é uma ramificação/infiltração da sua tese em História da Arte pela Uerj. Poderia comentar sobre a mostra e sua pesquisa, falando também sobre os desafios de trazer as ideias para o mundo, no espaço expositivo?

RAPHAEL FONSECA: Minha tese de doutorado em Crítica e História da Arte pela Uerj diz respeito às relações entre as redes de dormir e o Brasil. Trata-se de um levantamento iconográfico e uma análise dos discursos que associam a representação da rede a Brasil, brasileiro e brasilidade. É uma espécie de narrativa histórica (permeada por hiatos) sobre a apropriação cultural feita desde a Europa em torno da tecnologia ameríndia originária da rede. Quais Brasis foram inventados imageticamente a partir dessa articulação e quais as intenções daqueles que discursaram? A partir dessa pesquisa, esbarrei com a participação de Lucio Costa na Trienal de Milão de Arquitetura de 1964, cujo tema era o “tempo livre” e onde ele espalhou no espaço expositivo 14 redes de dormir. No caso da exposição Quando o tempo aperta, se tratou mais de articular um elemento da tese com tópicos que se fazem presentes nela, mas também a extravasam. Minha pesquisa de doutorado é um tanto quanto obcecada com a literalidade da rede de dormir; já a exposição se encontra mais preocupada com a articulação entre trabalho e cansaço, corpo ativo e corpo passivo, barulho e ruído, corpo esgotado e corpo desperto. Trata-se, então, de uma reunião de obras que falam de questões culturalmente mais amplas do que a tese. Foi difícil estabelecer esse recorte e, claro, é sempre um desafio pensar as obras a partir da arquitetura onde elas acontecerão – o espaço do Palácio das Artes (Belo Horizonte) era aproximadamente três vezes maior do que o espaço no Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro). Só esse dado e as necessárias alterações de escala das obras já deixam claro como o espaço de escrita discursiva curatorial é certamente outro quando comparado com os limites de uma folha de papel e a escrita de uma tese doutoral.

DANIELA NAME: O trabalho por demanda e a descentralização propostas pelo capitalismo cognitivo faz com que não nos permitamos mais a bênção da pausa, da desconexão. A arte ainda pode ser uma perturbação dessa atenção total, propondo outra experiência de tempo?

RAPHAEL FONSECA: Acho que a arte pode ser também um modo de convidar o público a outras experiências do tempo. Não colocaria, de todo modo, nas costas da arte esse lugar “libertário”, digamos assim. E penso assim porque cada vez mais enxergo a nossa hiperconexão (para lembrar ali das palavras do Jonathan Crary no seu 24/7 – O capitalismo tardio e os fins do sono) como algo inerente ao presente e ao qual dificilmente iremos nos desapegar e, pelo contrário, cada vez mais estará em nossos corpos. Minha reflexão caminha mais por: como tornar essa hiperconexão algo potente e que nos permita ter outras experiências do tempo? Em um momento em que os artistas riscam sobre as telas e já postam no Instagram, em que mal entramos em uma sala expositiva e saímos fotografando tudo e compartilhamos com hashtags, me parece que ver a arte como “o lugar” da desconexão é algo um pouco ingênuo, quase como se estivéssemos comparando experiências digitais com um lugar sacralizado/exótico do fazer artesanal, low-tech, desconectado. Enfim, acho que essas esferas caminham para se tornar uma e isso tudo certamente trará novos questionamentos existenciais para os artistas, os curadores e, o mais importante, para o público.

GABRIELA MUREB: Aproveitando o mote da Daniela, que traz à tona a idéia de trabalho sob demanda, e também questões propostas por você na curadoria de Quando o tempo aperta (como a que você coloca no texto curatorial: “É notável a efervescência do momento histórico pelo qual passamos, onde cada vez mais estamos conectados virtualmente e um infindável número não só de imagens, mas de concursos, editais e oportunidades se fazem presentes – tal qual o próprio Prêmio Marcantonio Vilaça”), queria que você falasse um pouco sobre como você tem pensado o trabalho do curador nessa máquina produtiva. Onde, como curador, você encontra a possibilidade de produção de desvio, de ruído? 

RAPHAEL FONSECA paço das artes
Vista da mostra no Paço das Artes, em BH

RAPHAEL FONSECA: Acho difícil se desligar dessa “máquina produtiva” – só de ter enviado o projeto para o edital do Prêmio Marcantônio Vilaça já me enquadra como parte dos mecanismos do sistema de arte que visam essa tal produção. Fica ainda mais difícil, pensando já de modo autoanalítico, porque acho que tendo a aprender sobre arte junto aos artistas e a partir desse “fazer” – preciso fazer coisas (exposições, textos, etc) para aprender junto. Isso me empurra conscientemente e inconscientemente para o meu caráter talvez funcional demais, workaholic demais, produtivo demais. É algo a se trabalhar existencialmente e junto à terapia. De todo modo, tenho pensado que um modo de se ir na contracorrente do “produzir por produzir” (ou seja, trabalhar pelo mero fato de trabalhar e de querer estar presente, ativo, lembrado) está no campo da pesquisa. Quando contribuímos publicamente com curadorias e elas são frutos de meses e meses (mesmo anos) de pesquisa, mesmo que por um lado estejamos a ejetar mais elementos dentro dessa “máquina produtiva”, ao menos ela está fundamentada em uma investigação densa e capaz de articular conhecimentos diferentes. O ato de se trancar nas bibliotecas, nos arquivos e criar teias de relações que não caiam em uma obviedade da pesquisa curatorial, sempre na escuta dos artistas pesquisados, me parece que já cria um ruído por si só e pode vir a ser considerado um desvio entre tantas proposições proporcionadas por esse boom da curadoria no Brasil e por projetos curatoriais que muitas das vezes chovem no molhado e reafirmam as mesmas coisas com palavras diferentes. Se há atualmente a internet, as redes sociais e a velocidade na comunicação digital, que nós curadores nos valhamos delas e consigamos estimular algumas reflexões sobre a arte e a cultura contemporâneas (ou históricas) de modo mais multifacetado.

DANIELA NAME: Sua curadoria une as redes de Lucio Costa na Trienal de Milão (1964), o “Crelazer” de Hélio Oiticica e trabalhos de jovens artistas contemporâneos. Assim como eu, você gosta de História, e não teria pudores para juntar gravuras japonesas, Aleijadinho e um jovem artista que trabalhasse com referências orientais em uma mesma exposição. Mas isso nem sempre é a tônica em nossas gerações. Você fica confortável com sua posição de ET?

RAPHAEL FONSECA: Não sei se posso me chamar de “ET” por ter essa relação com a história da arte (e esse campo da História), mas tentando te responder, sim, me sinto confortável. Curioso você perguntar isso porque lembro que quando comecei a pensar em curadoria, lá para 2010/2011, achava estranho o fato de vários curadores que eu conhecia no Brasil não terem nenhuma formação na área. Eu tinha uma postura um pouco agressiva e achava que “todo mundo deveria ser historiador da arte”. De lá pra cá, aprendi que a arte, felizmente, possibilita que diferentes pontos de vista travem diálogos – ou seja, curadores que considero muito bons tem formação em áreas como a sociologia, filosofia, ciência política, arquitetura, cinema, jornalismo… Enfim, diversas áreas dialógicas e não tem relação com a história da arte. Aprendi nesse tempo que isso não os faz e nem me faz ter “melhores” ou “piores” reflexões – são apenas perspectivas diferentes  e isso é essencial e saudável para o nosso fazer, para a fortuna crítica dos artistas e para o público. De todo modo, acho estranho quando percebo que alguns profissionais, diferentemente de uma ausência de diálogo com a História, tem uma espécie de rechaço com a área, como se todo o

campo, em pleno 2016, ainda nadasse num lago de colonialismo, elitismo e falta de autorreflexão inerentes ao seu fazer durante, por exemplo, o século XIX. Esses elementos podem ser perceptíveis, certamente, em discursos não só de historiadores da arte, mas em qualquer pessoa que lança seu olhar para as artes visuais. É a generalização prévia que me incomoda e me leva a pensar que, na verdade, alguns curadores tem certo medo da história da arte e não percebem que ela mais pode abrir janelas discursivas do que trancar o nosso olhar. Basta estudo, reflexão e, claro, tempo.

RAPHAEL FONSECA lucio costa marcel gautherot
Pavilhão de Lucio Costa na Trienal de Milão

ZÉ CARLOS GARCIA: Vivemos um cenário político atual no país bastante complexo, retrógrado, permeado de hipocrisia e pautado por um discurso religioso de regulação do comportamento social e individual. Uma cena em que os meios de comunicação insistem em difundir a imagem de um país dividido. Você que é um cara que sempre manifestou seus posicionamentos políticos de modo muito claro, como enxerga o papel da arte, do artista e dos curadores nesse contexto? Afinal, nós cuspimos ou engolimos?

RAPHAEL FONSECA: Em primeiro lugar, não sei se meus posicionamentos políticos são manifestados de modo claro – nos últimos anos tenho aprendido muito sobre política e acho que aos poucos vou construindo esse posicionamento. Ele ainda é turvo, mas espero um dia conseguir ser discursivamente mais explícito quanto a ele. Nesse sentido, talvez minha resposta decepcione – do mesmo modo que você fala que há uma insistência em difundir a imagem de um país dividido, gosto de pensar que se insiste em esperar que os agentes das artes visuais também tenham uma postura claramente cromática ou formal – vermelho ou azul, esquerda ou direita – ou, como você mesmo coloca, “cuspir” ou “engolir”. Eu acredito, pensando de modo amplo e não referindo apenas ao meu fazer, que há espaço para todos as atitudes no meio desse quebra-cabeça. Há aqueles (artistas, curadores, galeristas, gestores) que cospem e aqueles que engolem, assim como existem as imagens que incentivam cada um dos lados. Não cabe a mim julgar previamente essas atitudes recentes, mas observá-las e pensar no que desenrolarão. O que acho importante no meio disso tudo é o mínimo de coerência entre discurso político do artista e discurso advindo de suas obras – nada que algumas sessões de análise e autoanálise não possam contribuir. Impressiona-me ver algumas pessoas que “cospem” vinculadas às galerias que mais “engolem”, assim como alguns artistas que “engolem” serem inseridos em curadorias que “cospem”; é uma grande ciranda das contradições, típica da complexidade cultural e identitária do Brasil. Quanto ao meu fazer, sendo filho das transformações pelas quais o Brasil passou nos últimos quinze anos e observador de um andamento político claramente tendencioso e unidirecional quanto à caça às bruxas, posso afirmar que sou mais favorável ao “cuspir” do que ao “engolir”. Prefiro, porém, os cuspes mais silenciosos e sutis, do que as escarradas muito velozes, violentas e que não refletem que talvez esse movimento pendular já beire a ficção. Talvez todos nós devamos, no futuro, cuspir e engolir um pouco, dependendo de cada situação apresentada e sem certezas prévias. De todo modo, entendo e endosso que há momentos (na vida, na arte e na História) que a urgência das situações nos leve a um necessário cuspe imediato – vide, por exemplo, a simbólica atitude de Jean Wyllys em relação ao Jair Bolsonaro no dia da votação pelo impeachment na Câmara dos Deputados.

 

 

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