Antonio Bokel – Hieróglifo contemporâneo

Antonio Bokel inaugura daqui a pouco, às 19h30 dessa quinta-feira, dia 16 de junho, a exposição Nada além das palavras, sua primeira individual em Vitória, na galeria Matias Brotas. Tive a honra de fazer a curadoria da mostra, para a qual fiz o texto a seguir. 

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Eu preciso dessas palavras escritas

Arthur Bispo do Rosário

 

A relação de Antonio Bokel com as palavras e com o grafite ganha destaque e novos significados nessa primeira individual do artista em Vitória. O que se vê, não apenas no interior da galeria Matias Brotas, mas também na obra que vaza para além do espaço expositivo – na intervenção feita na fachada e nos sampler-lambes espalhados pela cidade – é a afirmação do interesse do artista pela escrita.

 

Nas cavernas de Lascaux, as primeiras pinturas foram e são simultaneamente arte e comunicação, conjunto de signos gráficos e figurativos que formam uma linguagem a ser decifrada, um vocabulário visual anterior aos alfabetos. Do Brasil à China, da Rússia ao mundo árabe, passando pelos alfabetos grego e esquimó, cada letra guarda em si a memória de uma imagem, que um dia foi desenho a tentar narrar e guardar o mundo para o tempo. As palavras não deixam de ser uma espécie de arquivo fantasmático, da sobrevivência do casamento entre ícones e letras nos ideogramas japoneses aponta para a possibilidade de as palavras também serem uma espécie de paisagem. Um horizonte instável, mas sempre possível, onde vamos buscar indícios sobre uma cultura e uma sociedade.

 

Bokel começou a mirar esse horizonte a partir de sua relação com o grafite e as intervenções urbanas. Sua pintura tinha, em seus primeiros passos, forte vínculo com a obra de artistas como  Jean-Michel Basquiat e Keith Haring. Nada além das palavras apresenta um amadurecimento do artista carioca para além das referências da arte urbana. A escultura Portugal no mundo, em que um galho de bronze perfura o livro que dá nome à peça, é muito emblemática para compreender esses novos caminhos. O galho, referência de paisagem recriada pelo artista, é também uma lança fálica que golpeia e fecunda a enciclopédia, espelho para nossa realidade como nação. No Brasil, o idioma colonizador estuprou as línguas indígenas donas desse país-continente, assim como os dialetos africanos de reis e rainhas capturados e escravizados. Mas o explorador europeu acabou sendo poluído, corrompido e adulterado por aqueles que oprimiu, já que o português falado no Brasil é um ruído do tripé de raças que marca nossa origem, constantemente recombinado com todas as influências que recebe de um mundo globalizado.

 

Black circuluz, tela tríptico que domina a montagem, fala desses ruídos entre paisagem e grafismos, e de como a luz acobreada dos trópicos pode aquecer e ressignificar o olhar sobre a paisagem e a escrita/discurso que criamos sobre ela. Ecoam nessa pintura todos os trabalhos reunidos em Vitória, um conjunto que, além de destacar a sobreposição entre palavra e imagem – e a leitura do grafite como um hieróglifo contemporâneo –  evidencia a capacidade de Bokel de mesclar as várias linguagens artísticas.

 

Nas telas maiores, quase monumentais, as áreas de monocromia, sobretudo na cor branca, como se vê na pintura Acaso, lembram as máscaras de extênsil usadas para pintar e escrever nos muros da cidade e revelam a presença de um vocabulário de gravura se infiltrando no fazer pictórico. É interessante, ainda, ver como tanto nos trabalhos agigantados quanto nas pequenas pinturas há um arranjo aparentemente randômico entre uma paisagem que parece ter sido feita com carimbos ou com monotipia, áreas de cor e o grafismo. Neste último, há a recorrência dos círculos, elemento que faz da escrita de Bokel algo contínuo, fluido, cíclico e feminino.  Ao criar um painel que se estrutura a partir das distinções, pintando como quem faz uma espécie de sampler, Bokel transpõe para seu trabalho um pouco da lógica das cidades, onde cartazes e letreiros se acumulam e se invadem nos muros e se misturam à vegetação, à identidade visual dos ônibus em movimento, às cores dos carros e dos passantes. Essa noção da cidade como um painel de signos efêmeros, em constante reconfiguração, aparece não apenas nas pinturas, mas também nos trabalhos em outros suportes – escultura, fotografia ou gravura.

 

No conjunto exposto na Matias Brotas,  o artista adiciona a alguns desses mosaicos de fragmentos áreas inteiras pintadas de dourado, o que causa estranheza – a  melhor das estranhezas – no observador. Cor ancestral para a história da pintura (dos ícones bizantinos a Klimt, passando pelas iluminuras medievais) e da arquitetura (das igrejas barrocas brasileiras aos palácios Ming), o dourado é o brilho mais branco que o branco, tom capaz de criar uma superfície ao mesmo tempo opaca e reflexiva, uma imagem que dura e reverbera na retina, no corpo e na memória de quem vê. Além de toda a sua carga histórica e simbólica, o dourado cria um estado  de suspensão, algo como uma paisagem entre parênteses.

 

Ao optar pelo uso da cor, ora salpicando ouro sobre o branco, ora misturando-o a um vermelho árabe e oriental, Bokel dá à efemeridade um banho daquilo que se alonga e que dura – como símbolo e como estímulo visual. Algo de nossa constante brevidade que pode, quem sabe, roçar no eterno.

 

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