Guilherme Dable – Martelo dos deuses

Guilherme Dable inaugura hoje a sua primeira individual em Londres, na Belmacz Gallery. Fui honrada com o convite para escrever o texto crítico da mostra, que significa um passo importante do artista gaúcho na direção de si mesmo, isso é, ao encontro das obsessões que lhe servem de motor. O olhar nada comum que Dable lança sobre a paisagem – e sobre a tradição pictórica que se debruça sobre esse gênero artístico – ganha em Londres uma radicalidade como  memória e como política, naquilo que ela tem de mais pessoal e mais íntimo. Deixo vocês com o texto, que fala de ruídos e de abafamentos, e tenta mergulhar em um conjunto de trabalhos que poderia ser espelho nosso – olhos, ouvidos, pele, o que queremos esquecer, o que precisamos guardar.

If you prefer to read the text in English, click here.

(Se preferir ler o texto em inglês, clique aqui).

Seja qual for o idioma escolhido, clique aqui para ouvir a playlist da mostra, pois ela também é  sobre as canções que ouvimos – e sobre as que fingimos não ouvir.

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Guilherme Dable trouxe a memória das casas de sua infância para esta sua primeira exposição individual em Londres.  Se pensarmos que a memória nada mais é que o território em que ficcionamos o mundo e o lar que nos abriga – na angústia, na epifania –, esta é uma mostra de fantasmas de casas, e eles percorrem outras casas: aquelas que o artista inventou para si, e para contar um pouco de si aos outros. The radio was always on in the kitchen é um título capaz de abraçar muitas ambivalências. Dable foi criança no Brasil da década de 1970, país que já era reconhecido pela Bossa Nova de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto; já tinha sido apresentado ao poderoso cancioneiro lírico de Chico Buarque e passado pelas invenções de Caetano Veloso e Gilberto Gil na Tropicália – movimento que ultrapassou as fronteiras nacionais fundindo a música do país com a lisergia e as guitarras elétricas, e tomando seu nome emprestado de uma obra de Hélio Oiticica.

Guilherme Dable2

Mas não é exatamente deste país e destas canções, legitimadas pelo chamado bom gosto, que esta mostra se aproxima. O rádio que o artista ouvia quando era criança vinha da área de serviço, espaço até hoje tratado com muita distinção nos lares brasileiros. Era o rádio de uma população apartada, formada por trabalhadoras domésticas que então eram quase invisíveis: cozinheiras, babás, faxineiras, diaristas. O som deste gosto popular – cantores como Roberto Carlos e Odair José misturados ao repertório folclórico do Rio Grande do Sul, estado onde Dable nasceu – infiltrava a sala e os quartos, vindo da cozinha. Era e é o vestígio de um Brasil que outros Brasis ainda não escutam e seguem se recusando a ver. A violência silenciosa desse recalque é contraditória, já que transforma a nação amordaçada em força que assombra, no melhor dos sentidos, todo este conjunto de trabalhos.

O título da exposição foi retirado do trabalho homônimo, em que uma chaleira fervendo aciona um conjunto de microfones. Possível metáfora para um país bipolarizado e em ebulição, o vídeo funciona como antena e esponja dos últimos acontecimentos no Brasil, que enfrenta uma crise política deflagrada, entre muitas outras razões, porque o som da cozinha, eco das antigas senzalas, tem se tornado audível. À parte essa sintonia com a vida que o cerca, Dable finca as raízes mais profundas de The radio… em sua própria trajetória. Ao longo dos anos, o artista sempre tratou a música de maneira analítica, recuperando o que ela tem de matemática sensível e decupando-a como um intervalo de sons e silêncios. Através de curiosa sinestesia, transpôs as áreas cheias e vazias de um intervalo sonoro para o jogo entre mancha/traço e apagamento/vazio que norteia o desenho. Sim, desenho. Com os olhos e ouvidos abertos para um imenso legado  (John Cage, Chelpa Ferro, Rebecca Horn), o artista agora usa uma chaleira para transformar vapor em música e o som do microfone em desenho de ar. No passado, fez de uma ruidosa enceradeira o seu lápis, se curvando a essa espécie de vórtex bailarino e ao seu traçado do acaso. Ora, enceradeiras e chaleiras são objetos de uso doméstico. No Brasil de nossa infância (somos, eu e ele, da mesma geração), e ainda no de agora, são também as ferramentas de um trabalho realizado majoritariamente pelas classes populares.

Guilherme Dable1O samba ainda não chegou, instalação que toma conta da galeria, volta a se referir à música já no título.  Se a segunda parte do título do trabalho The radio has always on in the kitchen – The hammer of the gods – se refere a um verso da Immigrant song, do Led Zeppelin, O samba ainda não chegou é um trecho de Desde que o samba é samba, canção de Caetano e Gil para o CD Tropicália 2, que comemorou os 25 anos do movimento musical.

Ao citar o samba, ritmo mais claramente reconhecível da cultura brasileira, mas escolher um verso que diz que ele “ainda não chegou”, Dable talvez aponte para duas questões importantes. A primeira delas diz respeito à sua própria formação. Nascido na região que está no extremo sul do gigantesco território brasileiro, o artista sempre teve dificuldade de se reconhecer nas referências tropicais associadas à nossa identidade. O outro ponto insinuado pelo verso é a ideia de trânsito: “o samba ainda não chegou”, mas pode estar a caminho, aparecer a qualquer momento. Ou não. A canção continua com “o samba não vai morrer/ veja, o dia ainda não raiou”.

Destaco as duas pontas de novelo que consigo enxergar apenas neste título, por entender que este é um trabalho capaz de nos fazer viajar até um anterior: os desenhos  Shelterruin/Ruínaabrigo, que Dable apresentou  neste mesmo espaço, na mostra coletiva Bar to the future, em 2013.  Criados para o chão, eles foram instalados no lugar do tapete de entrada da galeria. Criados em lápis aquarelável, mostravam um mosaico de padronagens de William Morris, tão importantes para a memória visual dos lares londrinos, coberto por um anteparo de acrílico, que protegia o desenho colorido, cobrindo-o ainda com outro traçado. A placa translúcida reproduzia padronagens de cobogós, um tipo de tijolo vazado muito usado nas construções modernistas brasileiras. Os visitantes pisavam neste conjunto de referências todas as vezes que passavam pela porta de entrada. Se seus sapatos estivessem molhados, a água colaborava para que a sombra negativa dos cobogós no acrílico começasse a diluir a aquarela e redesenhar a citação a William Morris. Um dripping de acaso, como o vapor da chaleira e como o baile da enceradeira.

Olhar para Shelterruin/Ruínaabrigo depois de conhecer O samba ainda não chegou tem, no entanto, ainda mais relevância quando ultrapassamos as fronteiras formais para arriscar um passeio pelas redes subjetivas e simbólicas. Os dois trabalhos se avizinham em sua capacidade de evidenciar o trânsito de imagens, tão importante para alguém proveniente de um país cujo inventário visual já nasceu mestiço, barroco, elíptico e viajante. Curiosamente, as duas incursões de Dable em Londres tiveram a mesma capacidade: estimular o artista a se reconhecer um pouco mais como brasileiro, se arriscando em trabalhos que mergulham de maneira vertiginosa na exuberância e nos ruídos dos trópicos, mas também em suas dores, seus recalques, sua imensa melancolia.

Guilherme Dable shelterruin
Shelterruin, desenho feito em colaboração com a água da chuva que chegava nos pés dos visitantes  de uma exposição coletiva na mesma galeria, em 2013

É notável, ainda, a reafirmação que O samba ainda não chegou faz de uma ideia de casa. Se em Shelterruin/Ruínaabrigo nossa atenção se voltava para o piso, agora somos convidados a percorrer um imenso painel de azulejos, panorama aparentemente desconjuntado de imagens distintas. Não são apenas azulejos com a geometria lírica dos painéis criados pelo artista Athos Bulcão para os prédios modernistas de Brasília, patrimônio reconhecido pela chamada “elite culta”. As estampas também vêm das mesmas cozinhas que habitam a memória infantil de Dable, em que o gosto popular amalgamava nos azulejos, sob uma paleta contrastante, de imagens de flores e releituras da op art. Crucial para a cultura portuguesa, o azulejo é memória brasileira e elemento estratégico de nossa arquitetura moderna. Mas, ao citar este repertório, o artista escolhe a lembrança filtrada pelo olhar que vem da margem, da cozinha, sem dar tanta relevância aos painéis dos salões monumentais ou ao crivo que vem da sala de estar. É um filtro que dá visibilidade àquilo que é, como já dito antes, recalcado. Nesse caso, não apenas na cultura brasileira, mas também nos circuitos e discursos da arte. Temos negligenciado o simbólico, as artes aplicadas e o popular; temos represado a poesia através de uma análise estritamente formal e conectada com as “últimas tendências”.

Parte do vigor de O samba ainda não chegou  vem de algo – na verdade, de alguém – que não é novo, e que oferece difíceis obstáculos mediante uma insistência na exclusividade do formalismo. As folhas cinzentas que tomam as paredes e o piso de boa parte desse ambiente, cortadas e pintadas uma a uma, nos levam até Matisse, pintor-viajante e artista dos trânsitos por excelência. Ao flertar com os cut-outs matissianos, Dable recupera a possibilidade de unir pintura, desenho e tridimensionalidade em um suporte ordinário e ancestral: o papel.  A gama de cinzas escolhida para o trabalho cria inúmeras encruzilhadas. Na via da história da arte, o cinza é cor de passagem de um campo de cor para outro, ponte entre mundos, luz e forma se modulando em sfumatto – pincelada tão vaporosa quanto um bico de chaleira. No caminho popular, as Cinzas batizam a quarta-feira de regeneração depois dos excessos do Carnaval e antes da contenção da Quaresma, lembrando que o samba pode ser triste como Folhas secas.  Matisse foi ao Marrocos, criou vitrais e murais e se assumiu como selvagem, sem medo de ser taxado de exótico ou decorativo. Aqui nesse outro tempo, Dable cria uma argamassa de referências díspares e um tanto despudoradas. Com ela, ergue paredes e espalha pelo chão essas imagens que cantam. O som delas é abafado, mas constante, resistente. Martelo dos deuses.    

 

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