Areia e música

Fiz o texto da exposição “Ciudad de Arena”, que Pedro Varela inaugura no dia 1 de julho, na galeria Enrique Gerrero, na Cidade do México.  Ele segue na íntegra aí embaixo.

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Pedro Varela tomou emprestado de uma canção de Jimmi Hendrix, “Castles made of sand”, o título de uma instalação desta exposição “Ciudad de Arena”, na Cidade do México.  Na letra, elíptica, Hendrix volta sempre à mesma frase de seu refrão – “And so castles made of sand, fall in the sea, eventually” (algo como “Então os castelos feitos de areia no fim desabam no mar”) – mas muda o verbo à medida que vai cantando. Em vez de desabar, os castelos passam a se desmanchar no mar (“melts into the sea”) ou simplesmente deslizam para a água (“slips into the sea”).

O jogo de palavras parece esclarecer muito sobre o trabalho do artista. Desde suas primeiras exposições, Varela usa os vazios para fazer suas cidades flutuarem no ar. Elas são sempre o avesso de uma grande metrópole organizada e lógica, e parecem brotar do meio do nada, misturando referências arquitetônicas que vão de prédios modernos a torres russas, passando por construções maias e astecas e pela arquitetura orgânica e colorida de Gaudí e Hundertwasser. Ilhas no meio do vazio, elas parecem sempre cidades felizes, formadas por estas incontáveis referências.

Cada uma é um castelo de areia, na medida em que reúne no espaço utópico tempos e geografias incongruentes. Parecem confirmar a hipótese defendida por Marco Polo em “Cidades invisíveis”, de Italo Calvino: “Cada pessoa tem em mente uma cidade feita exclusivamente de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, preenchida pelas cidades particulares”.

Castelos de areia têm tanta força no plano concreto quanto no discurso simbólico. Na vida real, lembram a memória comum a qualquer pessoa que tenha sido criança em uma cidade litorânea. No território da metáfora, têm a ver com sonho, com o projeto frágil que se desvanece de uma vez só, à primeira onda; ou devagarzinho, grão a grão, pelos ventos e pela chuva.

A obra de Varela abarca os dois sentidos da expressão. Se por um lado tem um parentesco com o lado lúdico da infância pelo fluxo contínuo com que seus desenhos feitos a nanquim ou caneta esferográfica se espalham no papel ou na parede, por outro constrói cidades de sonho, vindas da utopia. O “não-lugar” utópico é o território improvável, que só é capaz de existir em um tempo-espaço mais elástico do que aquele que chamamos de realidade.

O fio contínuo do desenho de Varela, mesmo quando transposto para o plano da escultura, dá às cidades do artista a suavidade que a música de Jimmi Hendrix vai adquirindo refrão a refrão. Se são feitas de ilusão e de sonho, as metrópoles do artista não precisam desabar do alto das nuvens ou lambidas pela ressaca. Podem deixar de existir com delicadeza, evaporando cada cor e cada forma e deixando resíduos em nossa memória e nossa imaginação.

Varela incorpora o vazio como dado importantíssimo em seu trabalho. Embora este vazio não tenha relação direta com o construtivismo, tem aqui o mesmo peso que teve para artistas pioneiros como Lygia Clark, Amilcar de Castro e Franz Weissmann. Nas esculturas de Weissmann e Amilcar e nos “Bichos” de Lygia Clark – ou mesmo nos “Metaesquemas”, de Hélio Oiticica – o espaço em branco, contrastado com o volume ou a área geométrica pintada, era um “vazio ativo”, alavanca para a imaginação do espectador, levado a preencher mentalmente os espaços faltosos.

Varela usa o vazio de outra forma, não menos importante e poderosa. Nesta “Ciudad de Arena”, o artista deixou isso ainda mais claro ao enxugar ao máximo sua paleta, trabalhando de forma praticamente monocromática. Desérticas ou polares, estas cidades cor de areia evidenciam uma influência oriental. Ela é forte nas cenas recortadas em papel, próximas das lanternas chinesas ou do origami japonês, mas paira por toda a mostra, organizada como um jardim zen. No budismo, a diferença e a adversidade devem ser vivenciadas juntas com a alegria, como parte da trilha cotidiana rumo ao aprimoramento.

No pensamento zen, o vazio é um farol iluminando o “cheio”, o espaço preenchido, ocupado. Quanto mais silêncio, mais registro. Quanto mais delicadeza, mais impacto. Um copo vazio está sempre cheio de ar, ensinou o compositor e cantor brasileiro Gilberto Gil em outra canção.

É curioso voltarmos sempre à música diante desta obra visual. Música é arranjo, composição, mas também a melodia ou o verso improváveis, que dilatam a emoção e a memória do ouvinte. Varela trabalha como quem faz música. Suas cidades são acordes de notas distintas, que incorporam aparentes contradições, criando um jogo com elementos de muitas procedências.

“Ciudad de Arena” traz ainda desenhos feitos de pontinhos de caneta, próximos do pós-impressionismo de Seurat, que tocam no jogo de aparição e desaparição que norteia seu trabalho. Esta dualidade é reforçada pela presença – real e metafórica – dos grãos de areia no mesmo ambiente de exposição. A areia e a caneta criam pontos de construção da imagem e de diluição do tempo.

Na mostra “Mirante”, apresentada em 2006, na Galeria A Gentil Carioca, no Rio de Janeiro, Varela estabelecia um diálogo com a janela renascentista ao mostrar cidades que pareciam se esvair no canto da superfície, sempre vistas do alto. Esta visita às paisagens de Da Vinci ou Piero della Francesca fica ainda mais curiosa quando misturada a outras influências da obra do artista. As cidades de Varela também são vizinhas dos arabescos e linhas de Kandinsky, que flutuam no espaço como formas bailarinas, e sobretudo das paisagens etéreas, sempre muito urbanas, de Paul Klee.

O crítico inglês David Sylvester defendeu, em dois artigos sobre Klee, que o pintor seria o avesso do Renascimento: enquanto nas paisagens setecentistas nosso olho é conduzido para um ponto convergente, em uma cena pronta, Klee nos apresenta suas cidades como um fluxo contínuo, percorrido pelo olho sem que haja um começo ou um fim pré-determinados.

Na música zen de Varela, a convergência entre Klee e Renascença é perfeitamente possível. A cidade que flutua no ar da galeria ou do espaço em branco do papel é um ponto marcante da paisagem, mas não se contrapõe ao vazio. Cria com ele um ritmo, que pode ser percorrido inúmeras vezes – e a cada caminho adquire novos sentidos.

Algo parecido com o refrão de Jimmi Hendrix. Ou com mar, que desmancha o castelo, mas oferece outros grãos de areia na espuma da onda.

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Para ir até o site de Pedro Varela clique aqui.

6 thoughts on “Areia e música

  1. Olá Daniela!
    googlando por aí, achei seu blog e foi uma preciosidade para mim!
    sou primeira anista de jornalismo e tenho prentensões para área de cultura, arte etc.
    Seu blog me deu uma visão mais ampla sobre essa área e como pode estar relacionado, agora, com a web.

    se não se importa, te linkei no meu blog.

    um abraço,
    Bárbara.

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