5 perguntas para Regina de Paula

A artista Regina de Paula inaugura a 5 perguntas aqui no blog. Com a silenciosa e potente exposição Diante dos olhos, os gestos em cartaz no Paço Imperial, Regina me ofereceu a oportunidade e a inspiração para o modelo  da seção, que será esporádica, sempre que o blog tiver a oportunidade para realizá-la. Outra característica que não muda é o caráter colaborativo do ping-pong: além das minhas perguntas,  a entrevista contará sempre com perguntas de artistas, curadores ou escritores que tenham intimidade com a obra ou o assundo abordado. Para entrevistar Regina, recebi a ajuda do artista Gê Orthof e do crítico Ivair Reinaldim, curador de Diante dos olhos, os gestos. 

Nessa conversa polifônica, Regina fala das contradições entre o gesto, sempre em movimento, e o fotograma estático, tensão muito presente na mostra. A Bíblia, livro que é uma das bases desse conjunto de trabalhos, aparece arremessada ao mar e lavada nas ondas salgadas. Assim é reativada e ressignificada através do movimento e da transformação causada pelo poder de infiltração e de fluidez da água. As fotos incluídas no artigo, quase uma visita virtual ao Paço, são de Wilton Montenegro, também parceiro desse primeiro 5 perguntas.

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Daniela Name: Água e areia são materiais muito potentes e reincidentes em seu trabalho. Como pensá-los também como metáfora do tempo e de uma ideia de narrativa, em especial nessa exposição que tem na Bíblia um ponto de apoio importante?

Regina de Paula: Os trabalhos dessa exposição tiveram início após minha ida a Jerusalém, e o que me impactou nessa viagem foi justamente a presença da dimensão temporal tão intensa nessa cidade. Um de meus primeiros trabalhos pós-viagem foi feito a partir de uma apropriação da Bíblia. Costumo referir-me às ideias como encarnações, pois despencam, como fruta madura. Mas voltando à questão, a relação que você estabelece é muito pertinente, porque a Bíblia em meu trabalho é como um bloco que contém a história, embora, evidentemente, eu não me furte à questão religiosa.

A areia e a água, mais recentemente a Bíblia, estão presentes em muitos trabalhos, o que ajuda a emendar um no outro e, nesse sentido, sugerir uma narrativa. Mas a questão não é simples, pois eu não conto histórias; a narrativa jamais é unívoca, tampouco é explicativa, consumada, e desse modo, já avançando na próxima pergunta, é importante acrescentar que os vídeos foram realizados com a técnica de stopmotion, o que sugere fragmentação, fazendo com que cada imagem respire e, por si, contenha algo; não é uma simples passagem para o que vem a seguir.

Daniela Name e Ivair Reinaldim: Há uma sobreposição – e um amálgama – entre gesto e imagem nesse conjunto de trabalhos. Gostaríamos de pedir para você comentar como isso se enreda para você não apenas na mostra, mas ao longo de seu percurso até aqui. Outro aspecto intrigante nos vídeos apresentados em sua mostra é a temporalidade mais lenta da passagem de um frame a outro – em contraposição a cenas (e edições) cada vez mais aceleradas presentes na produção audiovisual em geral. Como a escolha dessa temporalidade contribuiu para reforçar sua intencionalidade em relação a esses trabalhos?

Regina de Paula: Quando vocês falam em gesto, isso implica um sujeito e aí entra um dado interessante, pois até o início das fotoperformances, no final de 2013, eu fotografava espaços vazios. Na inauguração da exposição no Paço alguém comentou, acho que foi o Franklin Pedroso, que agora meu trabalho estava “povoado” ou “cheio de gente”, não lembro bem. “Cheio”, lógico, é hiperbólico, mas considerando os trabalhos anteriores dá para entender, pois por muito tempo dediquei-me à série Não-habitável que tinha como núcleo imagens de espaços de passagem, capturados vazios, em momento de inatividade. A inclusão de pessoas aconteceu justamente pela necessidade do gesto, que foi demandada, “ditada”, pela Bíblia. Eu comecei essa nova série de trabalhos com intervenções na Bíblia, recortes e preenchimentos com areia, e no processo veio a necessidade de realizar fotos, pois achei importante registrar certas etapas dos cortes e retiradas de partes da Bíblia, e isso gerou novos trabalhos, e no meio de tudo, como consequência, comecei a conceber ações.

Então tem um dado mais importante que o povoamento das imagens que é o movimento; gesto implica movimento, e tem então um paradoxo, a imagem, o fotograma, é estático, congela. Mas é esse congelamento que dá força, concretude ao gesto, paradoxalmente.

Eu tenho trabalhado com fotografia, mas não sou fotógrafa, tampouco uma artista de vídeo, embora venha trabalhando também com esse meio. Aliás, e por isso mesmo, nos últimos trabalhos tive a colaboração de Wilton Montenegro, que considero um gênio da imagem. Dou muito valor ao fragmento, à latência, ao intervalo, então a adoção do stopmotion foi uma escolha natural. Além disso, acho que estamos saturados de imagens, e essa temporalidade mais lenta, interrompida, cria um distúrbio. Quando, nos vídeos de Tempo para rasgar, o Ismael rasga a Bíblia, por exemplo, o gesto é abrupto, seco. As três projeções que compõem a obra possuem durações diferenciadas e não estão sincronizadas, ou seja, nada se repete do mesmo modo. Em resumo, acho que algo tem que te tirar da zona de conforto, ou, então, será apenas mais um vídeo.

Gê Orthof: Uma Bíblia clandestina e nômade, um tesouro-ampulheta, sempre em movimento, de mão em mão, através dos alfabetos. São muitos os mistérios nesse encapsulado gesto. Uma Bíblia é lançada em gesto kubrickiano [monolito-metonímia-monólogo]. Arremessar tão emblemática escrita ao mar seria um ato de libertação da palavra incorporada? Afinal, com quem conversam essas Reginas?

Regina de Paula: A sua pergunta me fez lembrar de outro trabalho que tem relação com a Bíblia, aquela caixa – bloco que construí, do meu tamanho e que é preenchida por números. Tanto a Bíblia quanto a caixa são blocos, mas a primeira, é textual, narrativa, universal enquanto a outra, pessoal e enigmática. Lavar e arremessar a Bíblia é transformá-la, colocá-la em movimento. O título do vídeo em que a Bíblia é arremessada, retirado a própria Bíblia, como todos, aliás, é Para o levante, e “levante” geograficamente é uma área do Oriente Médio. Além disso uma de suas acepções é erguer-se. É preciso ir adiante, rebelar-se, e a arte se movimenta, levanta.

Ivair Reinaldim: Nos trabalhos expostos há forte presença de ações colaborativas, seja em relação aos performers convidados (Anais-karenin, Eder Martins de Souza, Ismael David e Fernanda Canuta Ribeiro) ou a Wilton Montenegro, que fez o registro fotográfico de muitos de seus trabalhos anteriores, mas cuja participação agora é de outra natureza. Como você compreende a atuação e os limites (impostos, pertinentes e/ou já não mais necessários) do artista hoje?

Os limites são dados pelo artista, mas não pode haver ambiguidades, pois a colaboração envolve também uma questão ética e várias práticas. A autoria dos trabalhos de Gilbert & George, por exemplo, é totalmente compartilhada, sem hierarquia; já o cubismo foi criado por dois artistas: Braque e Picasso; são inúmeros os exemplos. A colaboração na arte possui diversas categorias, e, na verdade, é realmente raro o artista cujo trabalho seja mesmo solitário nos dias de hoje, pois ao utilizar-se de serviços diversos já está estabelecendo parcerias. Existe quase sempre uma divisão de competência. Acho que no meu caso um bom paralelo seria o cinema, pois envolve, muitas vezes, um trabalho de equipe. Mas o desejo inicial emana do diretor e, também, é ele quem bate o martelo, quem determina parâmetros e, afinal, é quem vai responder pelo trabalho. Eu tenho sido extremamente feliz com a atuação de meus colaboradores, sem dúvida alguma seus talentos contribuem para o resultado de meu trabalho, e todos são devidamente elencados na ficha técnica dos trabalhos. A sintonia é muito importante, pois não gosto de dar ordens, o entendimento tem que ser sutil, não pode haver tensão. Nas performances, eu indico minimamente o que deve ser feito. Por exemplo, peço para que a Bíblia seja rasgada ao meio, banhada e atirada ao mar. Eventualmente exemplifico algum gesto e dou outras orientações genéricas, pois os artistas nem sempre têm experiência em performance, mas conto também com o acaso. Com o Eder, por exemplo, teve um momento, que não está na exposição, mas que está no meu livro, em que, após ter lançado a Bíblia ao mar e tendo esta retornado com as ondas, ele segura uma das páginas que estava se soltando, onde havia uma pintura de Roger Van Der Weiden: a Virgem com seu filho recém-saído da cruz, e olha a imagem interrogando-a. Felizmente o Wilton registrou, e o resultado foi uma imagem muito forte. Então, nesses casos, muitos fatores operam.

A distância da câmera tem sido importante, pois preciso conceber o trabalho de forma mais ampla. Por outro lado, preciso deixar claro que a participação de Wilton Montenegro não é puramente técnica, porque ele entende tudo e vai além. Desde o que quero ao que escapa, pois o imprevisto sempre acontece.

Finalmente, para a abertura de minha exposição convidei Anais-karenin, que já havia atuado em uma das ações fotografadas, para a realização de uma performance presencial. Nesse caso, ela estabeleceu um diálogo com um de meus trabalhos, uma construção com cubos de areia. Foi uma nova experiência, um risco importante, porque é sempre bom alargar as próprias fronteiras. Fato é que gosto de juntar pessoas, de estabelecer conexões e acho que devo ser boa nisso, porque quase sempre dá muito certo.

Daniela Name: Na exposição, a montagem minuciosa privilegia o silêncio, importantíssimo para pensar o seu trabalho, e também um trajeto que é labirinto processual, que se faz como gênese e como uma espécie de odisseia infinita. Isso é sintetizado pelo vídeo em projeção dupla da última sala, na Fortaleza de São João. Quais foram os desafios de traduzir espacialmente, no encontro com a arquitetura do Paço, tão impregnada de história, o que você e o Ivair Reinaldim haviam decidido para a mostra?

Eu posso dizer que a curadoria do Ivair foi também uma parceria. Acho que ele começou a acompanhar o processo desses trabalhos a partir de 2014, então quando surgiu a exposição do Paço, já estávamos bem entrosados, e o desenho da exposição foi, de fato, definido com muita rapidez. Em relação ao diálogo entre meu trabalho e o espaço, tomamos o partido de dar visibilidade às características arquitetônicas do Paço. Por isso decidi não alterar, não escurecer a cor das paredes, o que poderia favorecer a qualidade da projeção, mas anularia o lugar; as portas, por exemplo, mal seriam enxergadas. Então houve uma negociação entre o trabalho e o espaço. Veja bem, este é um prédio do Brasil imperial e meu trabalho levanta questões relativas a nossa colonização. Tempo para rasgar, que eu já citei, não por acaso foi feito na Urca, assim como a videoinstalação da última sala, Porque as pedras das muralhas clamam e, ainda, Como o pó que o vento leva, ambos realizados na Fortaleza de São João. Esse bairro foi escolhido por ter sido uma das portas de entrada de nossos colonizadores, e, como é sabido, os jesuítas tiveram um papel significativo na missão colonizadora, então isso acrescenta uma camada muito importante aos trabalhos.

Outro dado relevante é a escolha da escala dos trabalhos em relação ao espaço. Nos vídeos de projeção dupla, que você destaca, a arquitetura é muito presente, toda a ação está emoldurada pelos arcos da Fortaleza de São João, então achei importante estabelecer uma equivalência com o espaço da sala, colocando uma projeção em frente à outra, e ocupando quase toda a parede, para que o espectador sinta-se dentro do espaço. Mas o trabalho extrapola essa relação, e isso é um dado muito importante. Eu poderia falar ainda que esse trabalho estabelece uma relação com a série “Não-habitável”, que desenvolvi por tanto tempo, mas aí entraria em outra seara…

 

 

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