Hélio antes de HO

Um dos "Metaesquemas" de HO: vazios e cores em destaque no Itaú Cultural


Dia desses estava conversando com o curador Felipe Scovino, meu querido amigo. Era uma aula transformada em bate-papo sobre minimalismo e acabamos esbarrando em Hélio Oiticica. “Acho que ainda falta escrever muito sobre o Hélio. Mas não o que já foi escrito. É um artista pouco explorado pela crítica e faço aqui a minha mea culpa”, disse ele. Concordei de imediato e fiz a longa viagem do Fundão para casa com aquilo martelando na minha cabeça. Abaixo, tento eu também fazer meu mea culpa, mesmo que ainda ligeiro.

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Uma das maiores virtudes da exposição panorâmica “Hélio Oiticica – Museu é o mundo” –  que se despede domingo, dia 16, do  Itaú Cultural, em São Paulo –  é apresentar ao público Hélio antes de HO.

Hélio Oiticica, o artista, foi se transformando depois de sua morte em HO, o mito. Tendemos a olhar com muita insistência para seu trabalho transgressor rumo ao espaço, com penetráveis, parangolés e bólides, mas nos debruçamos com certo desleixo sobre o período seminal de sua criação, onde estão seus “Metaesquemas”, os “Relevos espaciais” e as pinturas propriamente ditas, ainda com uma paleta de cores bem variada, incluindo tons de rosa e uma escala bastante grande de azuis.

Nesta mostra com curadoria de Fernando Cocchiarale e César Oiticica Filho – esperemos que o Rio de Janeiro consiga vê-la – ficamos diante destes trabalhos iniciais sem o filtro póstumo.  A crítica e a academia se acostumaram a “ler” Hélio Oiticica como se sua obra de juventude fosse uma espécie de antecipação do que ele faria depois. Assim, tendemos a enxergar os “Metaesquemas”  quase que exclusivamente como a semente dos futuros penetráveis. Nesta análise apressada, as formas geométricas imperfeitas e bailarinas passam a ser a profecia dos labirintos, onde o espectador de arte se transforma em participante/ator ao aceitar o convite para fazer seus caminhos.

Pouco se fala sobre os espaços em branco deixados em cada “Metaesquema”. Eles aproximam esta longa série de HO da escultura de contemporâneos como Amilcar de Castro  e  Franz Weissmann – este último dizia que sua obras eram tomadas pelo “vazio ativo” – e com a pintura de Lygia Clark. Também com esta artista, aliás, costuma-se cometer o mesmo “pecado”. É como se os  “Bichos” anulassem a potência do que foi feito antes deles, reduzindo a trajetória com inúmeros trabalhos importantes a um ensaio para este grande momento.

Mas voltemos ao Hélio.  No Itaú, o visitante tem o tempo necessário para ver os “Relevos” e talvez ficar intrigado com o uso insistente do amarelo, num contraponto aos pretos, vermelhos e azuis dos “Metaesquemas”. Esta paleta básica é combinada com o branco dos vazios, à la Mondrian. Há um rigor no uso da cor e dos planos que se sobrepõem, um estudo quase milimetrado de como a pintura pode se lançar rumo ao espaço.

Outra contemporânea de Hélio, Lygia Pape costumava dizer que o Morro da Mangueira havia libertado um dos lados do amigo. “Na Mangueira, o Apolo virou Dionísio”.  Lygia acreditava que o carnaval e o samba tinham dado a HO uma possibilidade de expansão e de entendimento do corpo – o seu próprio e o de sua obra – para além de sua organização e seu perfeccionismo quase obsessivo.

Estas características apolíneas e rigorosas, no entanto, também são Hélio Oiticica. E seu lado Apolo não é um projeto de Dionísio, não é apenas uma promessa de futuro.  Foi bom reencontrá-lo no Itaú Cultural. Será igualmente bom revê-lo em novos estudos sobre este artista tão fundamental.

10 thoughts on “Hélio antes de HO

  1. Cara Daniela, o Rio de Janeiro, já viu as melhores exposições de Hélio Oiticica.
    Ou você nunca ouviu falar da retrospectiva que abriu o Centro de Arte que levava o no me do artista? E a expo “Obra e Estratégia” no MAM? E “Cor, Imagem e Poética”?
    E quem teve o privilégio de ir a Houston e Londres para ver “The Body of Colour”?
    Todas sem exceção mostravam não só Metaesquemas, como Monocromáticos, Invenções, Bilaterais, Relevos, etc. cobrindo todo o percurso do artista sem essa coisa de Hélio antes de HO. Na minha opinião não existe Hélio antes de HO, existe Hélio Oiticica, o artista que deixou uma obra e uma reflexão profunda não só sobre o proprio trabalho como tambem sobre arte em geral. Um abraço.

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    1. Prezada Alma,

      Estas exposições já foram há bastante tempo. Vi todas – e “Cor, Imagem e Poética”, no MAM, foi feita por um grande especialista na obra do Hélio, o Luciano Figueiredo. Mas isso já faz tempo, é preciso o tempo inteiro estar revisitando a obra deste artista tão importante para além dos parangolés e penetráveis. O título “Hélio antes de HO” é uma brincadeira com a linguagem, é claro. Tenho certeza que você, que fez comentários tão inteligentes, entendeu isso. É óbvio que existe um Hélio apenas, mas parece que a crítica da arte olha apenas para um dos lados deste artista. Um abraço.

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  2. Uma das maiores virtudes da exposição panorâmica “Hélio Oiticica – Museu é o mundo” – que se despede domingo, dia 16, do Itaú Cultural, em São Paulo – é apresentar ao público Hélio antes de HO????
    E a retrospectiva no Centro HO, em 1996, você não era nascida??? Esta exposição contemplou muito mais do que esta singela exposição em SP. Sem contar com outras do HO no Centro, como Cor, Imagem e Poética, Penetráveis, e Obra Estratégia no MAM!!!
    Concordo com a Nara, os Metaesquemas amontoados e naquelas molduras brancas!!!! Parecem pass-partout!!! uuurrrgghhh!!! Metaesquema com passpartout é o oooo.
    Outra coisa, “formas geométricas imperfeitas”!!!!!??? Do metaesquemas? A geometria tanto dos metaesquemas como dos relevos e bilateriais é rigorosa!!! e de uma perfeição exemplar!!!!
    E, como foi morbido ver aquela a calça da fantasia da mangueira, ainda mais naquele estado, sem cós e sem barra!!!!
    Só digo uma coisa Hélio Oiticica antes de HO não é metaesquema ou grupo frente!!!

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    1. Caro desconhecido, mais modos na casa/blog alheios, por favor. Não é necessário debater com tanta agressividade. Eu, hein… Bom dia pra vc também.

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  3. Dani, concordo com o q vc diz sobre o Hélio, mas acho q aquele espaço não foi feito para o Oiticica. Fui ver ontem á noite e fiquei decepicionada em ver os metaesquemas amontoados numa pequena sala, embolados com os Relevos Espaciais, seria uma bela exposição em outro espaço. Espero q venha pro Rio e seria maravilhoso se fosse no Paço Imperial.

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    1. Vai vir para o MAM, Narita. Compreendo o que vc está dizendo e acho que concordo. Meu elogio foi à visibilidade destas obras não à montagem. Bejiocas!

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