Um lugar para a escultura contemporânea

10 12 2009

Obra de Raul Mourão, com a de Elisa Bracher ao fundo

No sábado agora, dia 12, às 11h, acontece a mesa-redonda de lançamento do catálogo da exposição “Experimentando espaços”, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Com curadoria de Agnaldo Farias, a exposição reúne nos jardins do museu esculturas monumentais de Afonso Tostes, Amalia Giacomini, Amélia Toledo, Arthur Lescher, Carlito Carvalhosa, Daniel Acosta, Eduardo Coimbra, Elisa Bracher, José Spaniol e Raul Mourão.

Trabalho de Eduardo Coimbra

Em meio à polêmica carioca depois de que o prefeito Eduardo Paes anunciou mais uma estátua figurativa na cidade –  em homenagem ao maestro Tom Jobim, nas proximidades do novo metrô de Ipanema – a exposição em São Paulo chama a atenção para a boa qualidade de nossa escultura contemporânea.

As obras dos artistas selecionados por Farias poderiam estar em praças e parques de qualquer cidade brasileira, misturando-se a obras de outros períodos e tornando-se acessíveis à população. Acesso franco, sem menosprezar a inteligência alheia – inteligência, é sempre bom frisar, independe de cor, credo ou classe social –  é a maior arma contra a ignorância e o desconhecimento que ainda mantém a arte contemporânea restrita a um pequeno grupo.

Além de adquirir obras novas, o Rio precisa enfrentar outro problema: a má conservação das peças monumentais já instaladas em vários pontos e (bem) incorporadas à paisagem carioca. Assinadas por artistas como Ivens Machado (na Carioca), Angelo Venosa (Praia do Leme), Waltercio Caldas (Av. Presidente Wilson), Franz Weissmann (Avenida Chile e Rua Luis de Camões) e José Resende (esquina da Rua do Rosário, altura da galeria Paulo Fernandes), elas demandam reparos e, em alguns casos, cuidados emergenciais.

"Jardim de ossos" por Afonso Tostes

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Ah, nunca é demais lembrar. O painel de azulejos de Aluísio Carvão no Leblon continua com peças faltando. O post que fez coro à campanha por sua salvação inaugurou este blog no dia 29 de agosto deste ano (leia aqui). Na época, a Fundação Parques e Jardins fez mil promessas.

Até agora… nada.





É quinta

8 12 2009

Walton Hoffmann dá prosseguimento à sua parceria com a Movimento, assinando a curadoria da segunda exposição desta nova fase da galeria, desta vez ao lado de Pedro Varela.  Em comum, os 16 artistas de “Estranho cotidiano” têm o que o nome da exposição sugere: trabalhos que desvelam o que não é assim tão trivial ou tranquilizador no dia-a-dia.  Felipe Scovino é o autor do texto que apresenta a mostra.





Na Pick Up do Dodô – 4 (parte 2)

3 12 2009

Meu Ipod e a trilha de “500 dias com ela”

Falei que ia ser cara-de-pau o suficiente para sacar da bolsa meu Ipod e fazer uma participação especial na Pick Up  do Dodô, que no post anterior criou uma trilha especial para fim de namoro a partir de “500 dias com ela”.  Vou falar da trilha do próprio filme, um arraso, não paro de ouvir.

Se “Alta fidelidade” (pausa para um suspiro por John Cusack… 1,2,3… Pronto) era um passeio pelo melhor da história do rock, vazando testosterona por todos os poros, em “500 dias com ela”  temos um leque mais aberto para o pop.

Logo depois dos letreiros, o  desengonçado protagonista, Tom, entra no elevador onde vai se apaixonar por Summer. Garota esperta, é ela quem se aproxima, puxando papo sobre o som que vem dos fones dele:

“É Smiths?”. Era.  E não uma canção qualquer: “That’s a light that never goes out”, que você ouve no vídeo lááá em cima, direto do Ipod do personagem para o meu. Morrisey se desmancha e faz a bola rolar:

“Take me out tonight
Where there’s music and there’s people
And they’re young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one
Anymore”

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Na Pick Up do Dodô – 4 (parte 1)

1 12 2009

Eu e Dodô conversamos muito sobre “500 dias com ela”, comédia romântica de Marc Webb que é o meio do caminho entre o mundo cor-de-rosa de “Amélie Poulin” e a visão totalmente masculina de  ”Alta fidelidade”.  Ecocardiograma do Clube do Bolinha – mas sem perder a escuta e a visão das garotas – esta é a história de Tom (Joseph Gordon-Levitt), um arquiteto frustrado que cai de amores por  Summer (Zooey Deschanel), a menina nova na firma que desfila nos corredores toda vez que precisa tirar xerox.

Summer é aquele tipo de criatura que deixa tudo meio no ar… até que um dia quem fica no vácuo brabo, sem nenhum chão,  é quem estava envolvido com ela. Crônica do fim de um amor e de seus muitos recomeços, “500 dias” vai gerar uma segunda parte desta Pick Up, porque eu vou ser cara-de-pau o suficiente para sacar a trilha sonora do filme diretamente do meu Ipod para o Pitadinhas.

Ah, sim, este é um ponto em comum entre este filme e “Amélie Poulin” e “Alta fidelidade”: trilha sonora impecável. Mas a trilha de hoje não vem da telona.  Dodô fez outra especialmente para nós, meninas.  Todo mundo já foi Tom, mas atire a primeira pedra quem não foi possuído pelo espírito de Summer e deu sinais trocados para aquela pessoa apaixonadíssima que estava ali do lado, babando. A gente já respirou fundo e dispensou caras bacanas, malas, canalhas e aquela antiga paixão louca, que tacava a gente na parede chamando nosso corpinho de lagartixa, mas um dia acordou no travesseiro vizinho parecendo nosso irmãozinho.

Os Bolinhas também vão amar o som. Mas, se estiverem na fossa, meninos, por favor: afastem-se de comprimidos e objetos cortantes.

TRILHA PARA TERMINAR UM RELACIONAMENTO COM UM RAPAZ, pelo DJ Dodô Azevedo.

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O corpo do morto

30 11 2009

A nova embalagem do biscoito Queijinho, vulgo Bolinha, da Piraquê. Como vocês podem ver – apesar da baixa qualidade e das sombras desta foto doméstica – as fotos dos biscoitos foram substituídas por um desenho de quinta categoria. Nem por hipnose alguém me convenceria de que esta coisa horrorosa é melhor e mais eficiente, moderna etc que o modelo anterior, criado por Lygia Pape.  Crime.





Design feito pra durar

28 11 2009

As canetas Bic aí em cima fazem parte da exposição “Ícones do design- França-Brasil”, que se despede amanhã do Paço Imperial e se encaixa perfeitamente nas últimas discussões sobre as embalagens de biscoito da Piraquê feitas por Lygia Pape, que estão sendo substituídas por uma versão mais “moderna” (leia aqui). Ao falar da Piraquê e das embalagens  das sardinhas Coqueiro criadas por Alexandre Wollner (leia aqui) – e também trocadas por uma versão inferior – não quis fazer uma ode ao saudosismo. O que está em jogo não é tradição, e sim afeto.  É ele a base da história e da longevidade de um produto de design. E, para chegar ao afeto dos usuários, um bom projeto precisa ser bom. Muito bom.

É uma equação quase igual à do ovo e da galinha, mas vou tentar explicar dando uma voltinha. Quando  montei a exposição “Diálogo concreto”, na qual Piraquê e Coqueiro foram grandes destaques, a frase que mais ouvia nas galerias da Caixa Cultural, tanto no Rio quanto em São Paulo, era “Eu me lembro”. A chave está aí: o bom design consegue se incorporar ao nosso cotidiano até se transformar num companheiro de jornada. Comi outros biscoitos na infância, mas lembro de detalhes das embalagens da Piraquê assim que fecho os olhos. Também lembro das inúmeras vezes que um saco de Bolinha ou Presuntinho foi posto em minha merendeira.  Ou da minha avó abrindo o pacote turquesa do Água. Ou do Maisena chegando à mesa para ser salpicado num prato fundo cheio de café com leite. Eu tomava aquela mistura como sopa, como café da manhã, todo inverno.

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O caso das sardinhas Coqueiro

27 11 2009

Este já faz tempo  e preserva alguma coisa do projeto original, embora também seja um retrocesso. Acima, vemos o projeto de Alexandre Wollner, artista egresso do concretismo paulista e um dos pioneiros do design no Brasil, para as Sardinhas Coqueiro. O projeto é de 1958 e Wollner aplicou princípios construtivos nas embalagens, popularizando a vanguarda no supermercado, assim como Lygia Pape fez com os biscoitos Piraquê.

A logomarca apresenta as folhas do coqueiro feitas a partir de uma sequência de círculos seccionados. Na lata, o próprio peixe é feito a partir de um triângulo e de um quadrilátero – um losango alongado – que se encontram pelos vértices. Os três sabores dos molhos são comunicados da forma mais simples possível: duas cores primárias – amarelo (azeite) e vermelho (tomate) – e uma secundária, verde (limão), que são facilmente associadas ao ingrediente principal de cada mistura.

O projeto resistiu até 2000, quando a Quaker do Brasil, atual proprietária da marca, adulterou a identidade visual sem sequer consultar o designer. O coqueiro em forma de ícone foi substituído por uma ilustração  e depois desapareceu da lata (veja à esquerda, na versão tomate, e à direita, na versão light). A sardinha virou algo disforme, de geomestria indefinida,  diminuindo assim a rapidez de memorização da marca. É um macete ótico muito usado pelos artistas construtivos: geometria e ícone são de fácil memorização, enquanto um desenho “completo” leva a tempo para ser processado por nossa inteligência visual.

Wollner, um craque, sabia disso quando “limpou” peixe e coqueiro, transformando-os em formas básicas. A lata atual peca ainda na adição de sardinhas no fundo colorido (uma redundância completa) e na profusão de fios e outros elementos que perturbam a absorção de informação.

Ficou muito mais difícil gravar a marca da Coqueiro, prova de que o projeto inicial de Wollner, além de muito mais belo do que o em vigor hoje, também era mais eficiente.





O crime da Piraquê

27 11 2009

Se você é brasileiro, sobretudo carioca, e tem mais de 20 anos, certamente teve sua infância marcada pelas embalagens dos biscoitos Piraquê. Olhe bem para a imagem aí em cima, então, e se despeça: a empresa está substituindo o desenho clássico por outro, chupado da embalagem do produto para exportação, que você vê aqui à esquerda. A nova versão já está chegando às gôndolas dos supermercados e aos camelôs que vendem biscoito na Uruguaiana e na Cinelândia. O Queijinho, vulgo “Bolinha” (abaixo), que traz bolinhas de biscoito no fundo vermelho – e que talvez seja a embalagem mais bonita e sedutora da Piraquê – também vai mudar para o modelo ao lado.

Além de ser um projeto pior, mais poluído visualmente, que dispersa as informações em vez de concentrá-las, a nova embalagem da Piraquê joga fora a obra de uma grande artista brasileira e parte da nossa história visual. O que muito pouca gente sabe é que toda a identidade da Piraquê – embalagens dos biscoitos, massas, caminhão e logomarca – foi criada por Lygia Pape, uma das maiores artistas que este país já produziu.  A atuação de Lygia, falecida em 2004, no ramo da comunicação visual foi tão versátil quanto no das artes plásticas. Entre o fim dos anos 1950 e os aos 1970, ela criou numerosos cartaezes e letreiros para filmes do Cinema Novo, caso de “Vidas secas”. A partir de 1960, já com boa experiência como programadora visual, atuou na Piraquê.

Lygia criou o desenho de embalagens que se tornaram clássicas, como as dos biscoitos Cream Crackers, Maria e Maisena, e de quebra inventou um novo conceito para a embalagem, depois copiado por outras indústrias do Brasil e do exterior. Até então, os biscoitos eram guardados em caixas ou latas padronizadas, fosse qual fosse o seu formato. A artista deenvolveu, no entanto um método próprio de cortar e colar o papel de embalo, de modo que ele  passou a envolver os biscoitos sem gerar sobras dos lados, acima ou abaixo. Os biscoitos passaram a ser empilhados verticalmente e o papel plástico apenas se sobrepunha a esta pilha, criando a forma que as embalagens de Maria, Maisena e Cream Crackers têm até hoje, ou seja, a de sólidos espaciais (cilindro, ovalóide e paralelepípedo).

Fui curadora da exposição “Diálogo concreto – Design e construtivismo no Brasil”, na Caixa Cultural do Rio (2008) e de São Paulo (janeiro deste ano). Na mostra, relacionava o trabalho de Lygia e de outros artistas construtivos brasileiros, como Geraldo de Barros, Willys de Castro,  Waldemar  Cordeiro, Amilcar de Castro e Aluísio Carvão como designers. Minha tese  - e a de Felipe Scovino, curador-ajunto  - era a de que o design ajudou esta geração a cumprir a utopia de chegar até as massas, até o grosso da população.

Nas embalagens da Piraquê, Lygia aplicou todos os princípios de Gestalt, de geometria sensível e de “obra aberta” que nortearam as obras de arte do período. Os losangos sobrepostos nas embalagens dos Cream Crackers e a embalagem do Água e Sal, que você vê acima, não me deixam mentir.  Olhe bem para a parturbação dos biscoitos desta última, espalhados sobre o fundo branco, e me diga:  não parece um “Metaesquema” de Hélio Oiticica?

A embalagem do Água (abaixo, à esquerda), em que o amarelo do biscoito torrado forma um contraste magnífico com o azul turquesa do fundo, já tinha sido alterada pela fábrica. No lugar desta obra-prima, hoje o Água vem numa embalagem preta com gotinhas de…  água (!!!), subestimando a inteligência de quem compra… e imitando a marca inglesa Carr´s, que tem as mais famosas bolachas de água e sal do mundo.

A do Goiabinha, até hoje parcialmente preservada da ignorância da Piraquê, é outra obra-prima: além de comunicar perfeitamente que se trata de um biscoito recheado, mostrado a foto com o risco da geleia de goiaba, empreende um outro princípio típico da pintura geométrica do período: o ritmo, ditado pela alternância matemática. No Goiabinha (à direita), a alternância 4X1 (quatro biscoitos recheados deitados, para um em pé) dá movimento e um ar lúdico à embalagem.

O desenho não é a única aproximação com a vanguarda do período. Ao transformar os biscoitos em sólidos geométricos e ser copiada no mundo inteiro, Lygia reproduziu no produto as formas de uma de suas obras mais famosas:em 1958,, pouco antes do trabalho para a Piraquê, ela criou, em parceria com Reynaldo Jardim, o “Balé neoconcreto”, executado a partir do momento em que bailarinos, cobertos por sólidos espaciais, faziam com que estes se mexessem no espaço. Qualquer semalhança não é mera coincidência, como me disse Lygia Pape em depoimento gravado em sua casa,, em 23 de fevereiro de 2003:

“Aquele era um momento em que experimentávamos muito em todas as áreas. Eu, particularmente, nunca gostei de ficar restrita a um suporte. Gostava de fazer com que eles conversassem e acabei levando a escultura para um trabalho como programadora visual. Sempre me diverti muito fazendo as embalagenspara a Piraquê. Adorava ir à gráfica, me despencava para Madureira para ver como estavam as provas de impressão. O formato das embalagens, que hoje aparece em qualquer biscoito, foi uma inovação para a época.

Depois outras indústrias, como a Aymoré e a Tostines, acabaram copiando a Piraquê. Os desenhos todos coerentes, que hoje foram muito deturpados, também foram uma novidade (…) Aquele vermelho aparecia para valer nas gôndolas dos supermercados. Dava para achar os produtos de longe”.

A Piraquê tem o direito de fazer o que quiser com sua identidade visual. Mas está cometendo um crime.





Literatura ‘on the rocks’

26 11 2009

O cabo da colher bate bem de levinho no corpo da taça de cristal – estamos em festa.  Hora do brinde, mas antes vem o discurso. Vou tentar ser breve: já está nas livrarias o “Guia de drinques dos grandes escritores americanos” ((Zahar, 104 páginas, R$ 34).  Edição caprichada, colorida, com capa dura e papel couché, o livro conta relação de 43 dos maiores nomes da literatura dos Estados Unidos – há 5 ganhadores do Nobel  e 15 do Pulitzer na lista – com a bebida. Truman Capote, Edgar Allan Poe, Dorothy Parker, Edmund Wilson, Charles Bukowski, Dashiell Hammett, Jack London e Tennesse Williams, entre outros,  são lembrados pelo seu amor por Martinis e Negronis, mas também pelo seu talento literário. Além de 43 receitas destes drinques (uns clássicos, outros redescobertos), o guia traz trechos da obra de cada um destes autores que os relacionam com a vida “on the rocks”.

O livro é uma parceria entre o ilustrador Edward Hemingway – neto exatamente de quem você está pensando, Ernest Hemingway, escritor e grande bebedor de Mojitos –  e o roteirista e escritor Mark Bailey (cujo nome não tem nada a ver, ele esclarece, com o famoso licor Bailey’s). A edição brasileira tem revisão técnica de Deise Novakoski, sommelière do restaurante Eça, no Rio de Janeiro, e colunista do “RioShow”, do jornal O Globo.

Hemingway e Bailey estavam numa festa literária um tanto chata,  sóbrios e encostados no balcão do bar, quando foram invadidos por uma onda nostálgica:  não era mais divertido quando John Steinbeck e Robert Benchley mergulhavam na piscina para resgatar garrafas de vinho?  Ou quando vovô Hemingway, já muitas doses acima, quebrava uma bengala na própria cabeça só para vencer uma aposta? Resolveram então sair em busca destes “bons tempos”. “Os coquetéis sobreviveram como a língua de uma civilização perdida”, dizem os autores, que recuperam receitas como a do drinque de champanhe e angostura de Dorothy Parker (ela adorava um Tom Collins, mas enjoava com o gim); do French 75, tomado por Djuna Barnes na Paris do Entre-Guerras, e do Mint Julep. Este último, feito com hortelã e uísque bourbon, está no capítulo de William Faulkner. Perfeito para alguém que disse que  ”a civilização começou com a destilação”.

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O imperador Vergara no Salão do MAM

24 11 2009

Quem defende uma crítica “pura”, aquela que jamais mistura objeto e criador no fazer artístico, pode parar de ler este texto daqui. É impossível falar da obra de Carlos Vergara sem levar em consideração a personalidade deste artista solar, que transformou a inquietude no principal motor de sua obra.  Dias atrás, cheguei à montagem de “Carlos Vergara: A dimensão gráfica – Uma outra energia silenciosa”, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Fui disposta a apenas analisar a obra e a montagem –  tinha pouco tempo para uma conversa longa naquele dia. Mas mudei de estratégia logo depois de entrar:  circulando por entre as caixas, pregos e furadeiras com sua bengala-banquinho, Vergara se apresentava à minha observação como um imperador no Salão Monumental.  Curvei-me diante de sua majestade e não pude fazer outra coisa senão olhar para todos os detalhes  do reino.  Com apenas 50% da voz  - metade das cordas vocais foram retiradas por conta de um câncer – ele falava sem parar para ajustar a altura dos quadros, discutir a melhor iluminação, tratar do coquetel com o filho e braço-direito, João,  e trocar as últimas ideias com o curador da mostra,  o colecionador George Kornis.

Tudo isso até as cinco da tarde, quando começou a “Happy hour do Vergara”, compromisso quase religioso que reunia toda a equipe diariamente durante a montagem. O vinho, o uísque e a cerveja do bistrô do MAM eram só pretextos para que todos se sentassem ao redor do papo e das gargalhadas do dono do trono. Ah, sim:  Vergara é um imperador que ri.  Soberano seguro e por isso mesmo maleável, acha graça de si mesmo, de quem está em volta e até da crítica.

Talvez esteja gargalhando agora, ao ler este começo meio atrapalhado de texto (É uma crônica? É uma crítica? É uma reportagem?). Talvez possa me tranquilizar em relação a estas linhas repetindo o que me disse naquele dia: “Anota aí, por favor: a vanguarda é o fim do estilo. Passei a vida inteira sendo olhado meio de lado pela crítica porque não fiquei numa zona confortável para a compreensão e a absorção comercial da minha obra. Isso deu trabalho não só para os críticos, também para o mercado. Nunca gostei de me repetir, sempre procurei a novidade. Fui taxado de incoerente, mas não ligo. Continuo procurando”.

Anotei, passo adiante.

Vamos então à obra, finalmente.

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