O canto de um lugar – Waltercio Caldas

8 02 2010

Waltercio e os livros: relação antiga e riquíssima

Waltercio Caldas está lançando, pela Cosac Naify, o livro  ”Salas e abismos”  (R$120). Catálogo para sua exposição homônima em  cartaz no Museu Vale, em Vila Velha, no Espírito Santo, a edição acabou se transformando em uma  espécie de visita-guiada gráfica ao trabalho do artista. Colaborei com a Cosac no material de divulgação do livro, realizando uma longa entrevista com Waltercio.

Na conversa que reproduzo abaixo, ele fala de como foi fundindo as noções de escultura e ambiente em sua obra, fazendo também com que cada trabalho de arte se transformasse em sua própria exposição. As salas e abismos que dão título ao livro são, segundo ele, um resumo de sua trajetória:

“Não tenho fases, existe um núcleo invisível percorrendo todas as obras. Minha intenção sempre foi fazer que um lugar cante”.

Qual a relação entre a exposição homônima ao livro, em cartaz no Museu Vale (Vila Velha-ES), e esta edição da Cosac Naify?

WALTERCIO CALDAS: A exposição apresenta 11 ambientes e tem mais de 1000 metros quadrados de área, o que me deu a possibilidade de montar trabalhos grandes e criar um percurso de visitação. O espectador visita uma sequência predeterminada de salas. Seguir este percurso é esclarecedor pois cada uma destas salas tem sua propria poética mas também interfere na seguinte.  Sendo assim a  exposição complementa  os próprios trabalhos.  Já no livro,  foram reproduzidos 25 ambientes, alguns  montados no Brasil pela primeira vez.  Tentamos criar um novo espaço , um espaco impresso , digamos assim, e também ai há a intenção de que uma obra  pode e deve  interferir na experiencia  de outra.

O título Salas e abismos parece fazer uma síntese de seu trabalho. Como se dá a relação entre ideias aparentemente tão díspares, as salas, ambientes fechados e conclusos, e os abismos?

WALTERCIO: Fiquei muito contente ao ver a reunião destes trabalhos no livro e me surpreendeu  a evidência deste  fio invisível que une todas as imagens. Em um dos textos, a  (crítica de arte) Sonia Salzstein  diz que estes trabalhos  são sempre “contemporâneos,no sentido forte do termo” talvez porque  não estejam submetidos apenas `as questões da época.  Ao longo de todos estes anos, minha intenção sempre foi fazer com que os lugares surjam, cantem,  e celebrem sua capacidade inicial de aparecer. O “lugar” é a questão fundamental no trabalho. Meus esforços são no sentido de criar objetos que se assemelhem ao lugar que ocupam, formando um conjunto que só ganha sentido  a partir da relação entre eles. Estas salas desvelam novas situações ambientais.  A partir daí, em suspensão, o visitante encontra  sua própria visão  antecipada na vertigem, no abismo.

No texto de apresentação da exposição e do livro, o crítico Paulo Venâncio Filho escreve que uma de suas características de seu trabalho é esta capacidade de aparecer, isto é, a maneira como o ambiente é montado e “aparece” aos olhos do público é importantíssimo, com a exposição se confundindo com o próprio trabalho. Ele também diz que as antigas caixas, que você fazia muito na virada dos anos 1960 para os anos 1970, foram se transformando nas salas. Como se deu este processo?

WALTERCIO:  Trato os ambientes como esculturas.  No início estas relações de aproximação e contradição  se davam dentro de caixas (caso de Condutores de Percepção, de 1969, reproduzido no livro). Aos poucos, a escultura foi se confundindo com o espaço, reforçando a ideia do lugar como questão fundamental do trabalho.  Nas grutas de Lascaux pesquisas revelaram que não havia vestígios de fuligem no teto das cavernas onde foram feitas as  pinturas. Se aquelas figuras foram pintadas no escuro, vejo aí uma tentativa inequívoca de expandir o  mundo, representando-o;  aquela sala, aquela gruta queria ser mais ampla do que o espaço físico que a limitava. Tento algo semelhante: criar novos limites para os objeto a partir do espaço que os constrange ou, quem sabe, um objeto tal qual  a pele de sua presença.

Leia o resto deste artigo »





O sonho de Cassandra

2 02 2010

O  vertiginoso balé de relâmpagos aí em cima  é uma animação feita pela americana Cassandra C.  Jones, artista incrível que conheci no cineminha de lençol do Leo Ayres.  Cassandra pesquisa as possibilidades de edição e reprodução de fotos e desenhos “roubados” da internet.  Fotógrafa que raramente fotografa, ela inventa suas imagens a partir do olhar alheio.

Em seu ateliê na Califórnia, ela maneja, sem qualquer cerimônia, de eclipses lunares a chefes de torcida adolescentes. Colecionadora de desenhos kitschs  e imagens da cultura pop americana, Cassandra cria com eles caleidoscópios que são ilusão à primeira vista. Flamingos dispostos em mandala podem formar a flor que você vê aqui ao lado (amplie para ver que legal). Este acúmulo barroco de padronagens é como uma boneca russa em moto-contínuo – imagens sempre revelando as imagens que contém. É, também, um barato lisérgico sem o risco de dependência química.

Na entrevista abaixo, dada para a repórter Xeni Jardin, do canal web Boing Boing, a artista fala deste roubo digital e diz que não se incomoda que as pessoas usem seus imensos painéis como papel de parede. Veja o vídeo até o fim para descobrir como inventar o voo de um ganso.





Mais música do acaso

1 02 2010

Outra obra do francês Céleste Boursier-Mougenot. Em vez dos passarinhos roqueiros do vídeo anterior (aqui), temos um piano que toca sem pianista, a partir dos movimentos que o espectador faz na sala de exposição. O ambiente é de 2009 e foi montado na Cooper Gallery, em Nova York. Nascido em Nice, em 1961, Boursier-Mougenot se aproxima aqui de John Cage e das experiências que Nam June Paik fez com instrumentos musicais, vitrolas antigas e discos em vinil.

Também no ano passado, o artista apresentou na Galeria Xippas, de Paris, “Scanner”, em que um balão inflado por gás hélio passeava pela sala estimulado por ventiladores. A partir de um sistema envolvendo sensores, um computador e amplificadores, o balão acionava notas agudas e graves e fazia música em seu percurso pelo ar.





A música da vida

31 01 2010

No Balanço de 2009,  tive saudade de “Variation”, obra  do francês Celeste Boursier-Mougenot que você vê acima. Foi uma exceção na salada contemporânea que a Pinacoteca de São Paulo apresentou paralela a  ”Matisse Hoje” (leia aqui).  No pátio do museu na Luz, tigelas e pratos de porcelana de vários diâmetros flutuavam em piscinas turquesa e produziam sons de agudos e graves em ritmos variados quando se tocavam seguindo a cadência imposta pela água quente.

Esta composição randômica, música do acaso feita no ritmo da vida, também aparece em outros trabalhos do artista.

“From here to ear” foi apresentado pela primeira vez no ano passado, na  Galeria Xippas, de Paris, que representa o artista e exibe até 13 de fevereiro uma exposição do brasileiro Vik Muniz. O ambiente agora está sendo visto no Barbican Centre, em Londres, e reúne 5 guitarras Gibson, amplificadores, pedais de som e microfones em um viveiro com 30 pássaros. As aves formam uma banda ao passear pelas cordas e bicá-las ou cantar próximas aos microfones. Uma fonte de água em ritmo contínuo funciona quase como um back in vocals.





Na pick up do Dodô – 5

28 01 2010

As carrapetas virtuais do Pitadinhas estão de volta e, prometo, não vão ficar mais  em silêncio durante tanto tempo. O super Dodô Azevedo, que fez ontem, no bar Atlântico,  a última edição da temporada de verão da festas Coordenadas, recebeu o Ipod de Lica Cecato que você vai ler lááá embaixo por e.mail e pensou em sua set list depois disso.  Tão fã de Lica quanto eu, Dodô foi na dela e reuniu os três links abaixo com percussionistas brasileiros que bombam na Europa: Naná Vasconcelos, Airto Moreira e Paulinho da Costa. Clique no nome da música para ouvir.

1. Roda moinho, com Naná Vasconcelos.

2.Peasant dance, com Airto Moreira

3. September, de Earth Wind and Fire (com Paulinho da Costa na percussão)

O Ipod da Lica Cecato

A cantora e compositora lança hoje, às 19h, na Fnac da Barra, seu disco “Gingabytes”. Com inéditas de Arnaldo Antunes e Chico César, o disco tem ainda preciosidades em sua “cozinha”: há participações especiais de Vernon Reid e Will Calhoun , do Living Colour, do guitarrista Romero Lubambo e do baixista camaronês Richard Bona, entre outros. Um poema da artista Lenora de Barros, “Garotas POP”, foi musicado por Ale Cecato.

O primeiro vídeo abaixo vem do Ipod de Lica e mostra o percussionista brasileiro Cyro Baptista em ação com a Beat The Donkey. O segundo foi roubado na cara dura dos ensaios de “Gingabytes”:  ”Levo love”, com Chico César e Lica Cecato, e mais o que Lica chama de “uma colagem de takes do estúdio”.





Última canja de “Herb & Dorothy”

25 01 2010

Os colecionadores mais fofos do planeta (saiba mais aqui e aqui) vão visitar o artista James Siena. Assisti-los em ação é ter a certeza de que a primeira condição para quem quer entender de arte é disposição para olhar. Ponto.





Mais Herb & Dorothy

21 01 2010

Mais um pouquinho do documentário sobre o casal Vogel (primeiro texto aqui), que formou uma das maiores coleções de Minimalismo e New Art dos Estados Unidos com salários de classe média baixa e morando num quarto-e-sala em Nova York. Neste trecho, eles vão a National Gallery ver como anda a catalogação das peças de seu acervo para uma exposição. Ao fundo, Dorothy mostra que não perdeu o traquejo da antiga atividade ao indexar tudo o que está ali para uma das curadoras da instituição.

Mas a hora do show fica mesmo por conta de Herb. Ao dar de cara com a primeira peça que comprou com a mulher numa mesa – uma obra de John Chamberlain feita de sucata, em 1962 – pede que ela fique em outra posição, para depois explicar o motivo de ter comprado a escultura: “É muito difícil fazer uma peça pequena que parece uma peça grande”.

O curioso é que, ao girá-la,  ele faz com que ela fique apoiada em dois eixos, tornando muito mais claro o que ele mesmo diz: com os apoios e um vão na parte inferior, dá para imaginar a peça de Chamberlain como um projeto de escultura monumental, para ser instalada em espaços públicos. Lembrei de Franz Weissmann, que usava singelos clipes de papel e pedaços de cartolina para projetar, apenas com cortes e dobras, as esculturas gigantescas que hoje estão em vários lugares do Rio. Com uma estante cheia destes projetinhos em seu ateliê em Ipanema,  Weissmann dizia que a praça pública cabia ali, no clipe que entortava diante de seu interlocutor.

Sabe tuuuudo este vovô Herb.





Maravilha é o Rio de São Sebastião

20 01 2010

Não costumo misturar meu trabalho em comunicação com o Pitadinhas, mas hoje vou abrir uma exceção, porque “Canções do Rio” foi muito mais do que um desafio profissional: cantarolei lendo cada capítulo e, depois disso – percebam o milagre – desencaixotei meus CDs e não uso meu Ipod há duas semanas. Queria ouvir música sem shuffle, para cada verso ser degustado como se deve sambar, com passos miudinhos.

O livro da editora Casa da Palavra vai ser lançado hoje, feriado de São Sebastião, padroeiro desta Cidade Maravilhosa, a partir das 14h, na livraria Folha Seca, na Rua do Ouvidor. A loja de Rodrigo Ferrari, que tanto já fez pelo meio literário carioca, também comemora seu aniversário e uma edição especial da já clássica roda de samba e choro da Ouvidor anima a festa dupla.

Organizado por Marcelo Moutinho, “Canções do Rio”  traz textos de João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger mostrando como o Rio foi cantado pelos mais diversos estilos musicais através do tempo. Ler cada um dos pequenos ensaios é entender que, se o Rio foi o ponto de partida para muitas canções, as canções podem ser o primeiro passo para entender a cidade.  Moutinho sugere láááá embaixo trechos de cada autor. Antes disso, fiz uma pequena trilha para a leitura do livro, com uma canção por capítulo.

1. “Dos primórdios à Era de Ouro”, João Máximo – Palpite infeliz, de Noel Rosa (por Lucas Santtana e Seleção Natural)

2. “As marchinhas – Elas contam tudo”, Sérgio Cabral – Cidade Maravilhosa, no vídeo da campanha pelas Olimpíadas no Rio em 2016, dirigido por Rodrigo Meirelles. O arranjo  é de Antonio Pinto.

3. “O samba – Cidade, quem te fala é um sambista”, Nei Lopes – O meu lugar, de Arlindo Cruz

4. “Bossa nova – Brigas, nunca mais”,  Ruy Castro – Corcovado, de Tom Jobim (por Tom e Elis Regina, com “Águas de março” de brinde)


5. “A canção moderna – Uma cidade bonitinha e má ou os dois sentidos da palavra arrastão”, Hugo Sukman - Estação derradeira, de Chico Buarque (por Luiza Dionísio)

6. “Rock, rap, funk – E o gringo, quem diria, foi parar em Jacarepaguá”, Silvio Essinger – “Rap da felicidade”, de Cidinho e Doca

+++

A seguir,  os trechos  selecionados pelo Moutinho:

Leia o resto deste artigo »





O horror, o horror

19 01 2010

A artista  Luiza Baldan flagrou este cartaz da Piraquê com todas as novas embalagens dos biscoitos reunidas. Não fique culpado se você não reconheceu, é difícil mesmo:  o terceiro da esquerda para direita é o Queijinho, vulgo Bolinha. E o seguinte é o Presuntinho. Ou o que restou dele.  Leia aqui para entender porque isso é uma catástrofe.

O cartaz também é uma peça gráfica tenebrosa, não acham?





Herb & Dorothy

19 01 2010

Esta dica do Leo Ayres (site do artista aqui), antena parabólica de coisas bacanas, reacendeu minhas antigas convicções. O trailer aí em cima é de “Herb & Dorothy”, filme de Megumi Sasaki lançado nos Estados Unidos no ano passado e que vem arrebanhando prêmios no circuito de cinema independente. (“You don´t have to be a Rockefeller to collect art” (“Você não precisa ser um Rockefeller para colecionar arte”), diz o cartaz do documentário.

Herb e Dorothy Vogel mostram que isso é mesmo verdade. Hoje aposentados e na terceira idade, eles já viviam no apartamento de quarto e sala em Nova York quando começaram seu acervo. Dividem o espaço com um gato, 19 tartarugas, aquários de peixes e… mais de 5 mil de obras de arte. Elas estão em todas as paredes, tetos, portas, pastas, dezenas de caixas que se acumulam por toda parte, inclusive embaixo da cama.

Sem qualquer formação na área, fizeram da arte um projeto comum depois que Herb, que já adorava o assunto, levou Dorothy para passar a lua-de-mel em Washington, só para ficar mais perto da National Gallery. Ele era carteiro e cumpria expediente no horário noturno dos Correios americanos; ela era bibliotecária. Tentaram ser artistas, mas viram que não tinham traquejo para a coisa. Seu talento, se veria mais tarde, era a coleção.  Tiveram tino e um olhar sem reservas para obras e artistas no início do Minimalismo, movimento da arte americana que até hoje oscila entre dois extremos perigosos: a crítica criptografada, que torna ainda mais difícil e distante o que não é tão difícil assim, e o preconceito que vocifera coisas do tipo “ah, isso não pode ser arte”. Desde o início, o casal se orientou por dois critérios: eles precisavam se apaixonar pelo que estavam vendo e a peça tinha que caber dentro de casa e poder ser carregada até lá a pé, no máximo de táxi.

Neste trailer curtinho há depoimentos de artistas importantes como Chuck Close e o casal Christo e Jeanne-Claude (ela, falecida repentinamente em novembro do ano passado). Mas os Vogel frequentaram e ainda frequentam todos os maiores nomes da arte americana dos anos 1960 para cá, caso de Sol LeWitt e John Chamberlain. Artistas abrem seus ateliês porque querem ouvir a opinião deles, que se relacionam de igual para igual com curadores e galeristas.

“Herb & Dorothy” é uma história de amor e só pode ser assim porque também é uma história de destemor. Não se ama sem curiosidade, sem abertura para o outro… e sem risco.

Apaixonadíssima pelos dois, volto a postar trechos do filme em breve.